Um estudo conduzido pela Escola de Medicina de Harvard, publicado nesta terça-feira no British Medical Journal, revelou dados alarmantes sobre os riscos neurológicos enfrentados por atletas profissionais de futebol americano. De acordo com a pesquisa, pelo menos um quarto dos jogadores que atuam na principal liga de futebol americano dos Estados Unidos podem desenvolver uma doença cerebral degenerativa ao longo de suas carreiras.
A condição identificada é a Encefalopatia Traumática Crônica, uma patologia causada por golpes repetidos na cabeça. Os sintomas incluem comprometimento das funções cognitivas, dificuldades motoras como problemas para caminhar, instabilidade emocional acentuada e, nos casos mais graves, pensamentos suicidas. A doença já foi associada não apenas ao futebol americano, mas também ao boxe e outros esportes de contato, além de ter sido diagnosticada em militares expostos a explosões.
A pesquisa foi liderada pelo professor Daniel Daneshvar e analisou os cérebros de jogadores falecidos que disputaram pelo menos uma partida na era do capacete rígido obrigatório, iniciada em 1949. O foco principal recaiu sobre as mortes ocorridas entre 2016 e 2021, período em que as doações de material cerebral foram mais frequentes. Das 878 mortes registradas nesse intervalo, 235 indivíduos tiveram seus cérebros doados para examination científica, e a Encefalopatia Traumática Crônica foi confirmada em 215 deles.
Os pesquisadores calcularam que a taxa mínima da doença seja de 24,5%, considerando apenas os cérebros efetivamente analisados. No entanto, a estimativa máxima aponta que a patologia pode afetar até 97,7% dos atletas profissionais, com o valor real provavelmente situado entre esses dois extremos. O estudo também estabeleceu uma relação entre os casos mais graves de Encefalopatia Traumática Crônica e o desenvolvimento de demência, verificada por meio de prontuários médicos e entrevistas com familiares dos esportistas.
Os autores do estudo destacaram que os jogadores apresentam maior prevalência da doença no momento da morte em comparação com estudos anteriores conduzidos em outras populações. Apesar dos resultados preocupantes, os pesquisadores reconheceram limitações na metodologia, como a não inclusão de todos os ex-atletas falecidos no período analisado e a possibilidade de familiares terem relatado sintomas de forma imprecisa ou exagerada.
A Encefalopatia Traumática Crônica não é uma descoberta recente. A condição foi descrita pela primeira vez em 1928 pelo patologista Harrison Martland, que a identificou inicialmente em boxeadores sob o termo demência pugilística. Entretanto, foi em 2002 que a doença ganhou maior visibilidade quando o neuropatologista forense Bennet Omalu a diagnosticou pela primeira vez em um jogador da liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos. Seus estudos, publicados a partir de 2005, comprovaram que a degeneração cerebral não afetava exclusivamente lutadores, mas também atletas de outros esportes com impactos repetitivos na cabeça.
O trabalho de Omalu gerou forte repercussão negativa para a liga, que tentou desacreditar as pesquisas científicas para proteger seus interesses comerciais. A história do médico foi levada ao cinema em 2015 pelo filme Um Homem Entre Gigantes, estrelado por Will Smith, que interpretou o neuropatologista. No Brasil, a produção recebeu o título que faz referência aos traumas cranianos sofridos pelos esportistas.
No universo do futebol, a discussão sobre os impactos de traumas repetitivos na cabeça ganhou força recentemente. O ex-zagueiro francês Raphael Varane, tetracampeão da Champions League pelo Real Madrid e campeão da Copa do Mundo de 2018 com a seleção francesa, agora integra o Conselho de Educação do Como 1907, equipe da primeira divisão italiana. Sob sua supervisão, o clube decidiu proibir o cabeceio para crianças com menos de 11 anos e restringir a prática até os 13 anos, argumentando a necessidade de proteger jovens atletas de impactos repetitivos que podem comprometer o desenvolvimento neurológico.
A medida já foi adotada em países como Inglaterra, Irlanda, País de Gales e Escócia, que restringem o cabeceio para menores de 12 anos. A discussão ganhou destaque no Reino Unido após ações judiciais movidas por ex-atletas e familiares contra federações locais, alegando omissão frente aos riscos de traumas cranianos e doenças neurodegenerativas. O órgão que regulamenta as regras do futebol mundial, conhecido internacionalmente por sua sigla, decidiu proibir o cabeceio intencional para crianças de 12 anos ou menos, estabelecendo a prática como infração similar ao toque de mão deliberado, com sansões disciplinares conforme o contexto da jogada.
Fonte: A TARDE