Enquanto o Brasil ancora celebrações pelo Dia Nacional do Voluntariado nesta sexta-feira (28), dados revelam um cenário de contrastes: de um lado, milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade; de outro, um número crescente de brasileiros dispostos a dedicar tempo e esforço para ajudar o próximo.
Questionamentos sobre participação social ganham força diante de indicadores que demonstram a dimensão das necessidades existentes. Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revela que 7,3 milhões de pessoas com 14 anos ou mais exerceram alguma atividade voluntária em 2022, representando 4,2% dessa faixa etária. O percentual representa avanço em relação a 2019, quando a taxa nacional ficou em 4%.
A pesquisa considera voluntariado como atividade não obrigatória, realizada por pelo menos uma hora semanal sem qualquer remuneração, com foco no benefício a terceiros. O estudo também aponta que 86,4% dos voluntários atuam vinculados a empresas, organizações ou instituições, evidenciando que a solidariedade organizada ganha cada vez mais espaço na sociedade brasileira.
Mulheres lideram índices de participação voluntária. Em 2022, 4,9% das mulheres realizavam trabalho voluntário, contra 3,5% dos homens. Entre pessoas com formação superior completa, o percentual subiu para 6,9%, sugerindo correlação entre nível educacional e engajamento social.
Dados sociais reforçam urgência de iniciativas solidárias. O IBGE indica que 23,1% dos brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza em 2024, considerando o parâmetro internacional de US$ 6,85 por dia em paridade de poder de compra, o equivalente a R$ 694 mensais por pessoa. O cenário, embora ainda preocupante, representa melhora em relação aos 27,3% registrados em 2023. Nesse período, aproximadamente 8,6 milhões de pessoas conseguiram superar a condição de pobreza.
Análise mais aprofundada evidencia que a pobreza vai além da questão financeira. Estudo do UNICEF sobre pobreza multidimensional na infância e adolescência, publicado em 2025 com dados de 2023, aponta que 28,8 milhões de crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos enfrentavam múltiplas privações, correspondente a 55,9% desse grupo populacional. O número representa evolução positiva comparada a 2017, quando 34,3 milhões de jovens viviam nessa condição, ou 62,5% do total.
As privações se manifestam em diversas dimensões: 38% das crianças e adolescentes sofriam com deficiências no saneamento básico, cerca de 19,6 milhões de pessoas; 19,1% enfrentavam privação de renda, aproximadamente 9,9 milhões; 5,8 milhões sofriam com deficiências habitacionais; e 4 milhões enfrentavam privação educacional. Tais números demonstram que muitas famílias lidam simultaneamente com múltiplos obstáculos para garantir condições dignas de vida.
Ferramentas de identificação social evidenciam abrangência das necessidades. O Cadastro Único, gerido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, reunia em março de 2026 informações de 42,2 milhões de famílias, totalizando cerca de 96 milhões de pessoas — quase metade da população nacional. O cadastro serve como porta de entrada para políticas sociais direcionadas à população de baixa renda.
Pesquisa coordenada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e pelo Datafolha traz perspectiva adicional sobre engajamento voluntário. O estudo revela que 56% dos adultos brasileiros afirmaram já ter realizado alguma atividade voluntária ao longo da vida. Na ocasião, o país contava com aproximadamente 57 milhões de voluntários ativos — número distinto da metodologia utilizada pelo IBGE, que mede participação semanal.
Especialistas defendem que ações voluntárias não necessitam de grandes investimentos financeiros. Um docente pode disponibilizar horas extras para aula; um profissional pode compartilhar conhecimento técnico; um morador pode integrar mutirão comunitário; e qualquer pessoa pode oferecer dedicação a entidades que acolhem idosos, crianças ou pessoas em vulnerabilidade. Separar roupas em bom estado, participar de campanhas de arrecadação, visitar idosos que vivem sozinhos ou colaborar com projetos ambientais e de proteção animal são formas igualmente válidas de contribuição.
O Dia Nacional do Voluntariado surge, portanto, como convite para olhar ao redor e reconhecer que transformar realidades pode começar com gestos simples, mas que, acumulados, constroem uma sociedade mais justa e solidária.
Fonte: Aratu On – Últimas Notícias