Na noite de 17 de agosto, a advogada e analista política boliviana Nadia Beller encontrava-se hospedada em um hotel de Santa Cruz de la Sierra quando dois indivíduos motoqueiros, trajados como entregadores de aplicativos de alimentação, aproximaram-se e efetuaram três disparos. Beller escapou com vida, porém o desdobramento posterior ao atentado elevou o caso para além da esfera criminal e trouxe novamente à tona uma figura central da direita radical sul-americana.
Na madrugada seguinte à tentativa de assassinato, o consultor político argentino Fernando Cerimedo preparava-se para embarcar com destino a Buenos Aires, mas acabou detido no aeroporto pelas autoridades bolivianas, que passaram a investigar uma possível ligação dele com o ataque. A linha de investigação inicial apontava para uma suposta rivalidade pessoal entre os dois, com ameaças registradas no celular do argentino. Cerimedo nega qualquer participação no crime.
Ao cumprir mandado de busca em residências vinculadas a Cerimedo, a polícia boliviana descobriu uma estrutura modesta de equipamentos informatiques vinculada à operação de uma granja de perfis automatizados — sistemas e contas criados para fabricar, multiplicar e amplificar artificialmente mensagens nas plataformas digitais. As autoridades também passaram a apurar suspeitas de lavagem de dinheiro e atos de corrupção. O argentino refuta todas as acusações.
Antes de atuar nos bastidores da internet, Cerimedo havia consolidado sua reputação como marqueteiro político em uma redação de notícias. Em 2021, fundou na Argentina o portal La Derecha Diario, rapidamente transformado em peça fundamental do ecossistema midiático da direita radical na América Latina. A estratégia era simples, porém eficiente: uma informação agressiva veiculada em um veículo com aparência jornalística era impulsionada por perfis engajados e contas automáticas. Ao atingir determinada massa de alcance, retornava ao debate público como se fosse um conteúdo viral orgânico.
Entre 2022 e 2023, o portal de Cerimedo produziu e espalhou inúmerias notícias fraudulentas em sequência. Entre as mais impactantes, estavam teorias sobre irregularidades nas eleições brasileiras, conteúdos distorcidos sobre educação sexual e aquecimento global, além de vídeos manipulados para deturpar pronunciamentos de figuras públicas. O argentino chegou a reconhecer publicamente que fabricava campanhas negativas e mantinha Gruppen de trolls, denominação utilizada para designar redes coordenadas de pessoas ou sistemas digitais remunerados, estruturados para influenciar a opinião coletiva, propagar inverdades e atacar adversários políticos no ambiente virtual.
O Brasil serviu como campo de testes fundamental. Em novembro de 2022, poucos dias após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, Cerimedo transmitiu ao vivo a denominada Brazil Was Stolen, diante de centenas de milhares de telespectadores, apresentando gráficos, imagens e argumentos já comprovadamente falsos para sustentar diferenças entre modelos de urnas eletrônicas. O Tribunal Superior Eleitoral ordenou o bloqueio das contas do Diário da Direita no Brasil. Contudo, a repercussão não se limitou ao universo digital. O material foi disseminado por parlamentares e influenciadores alinhados ao bolsonarismo. Conforme apurações e documentos levantados pela Polícia Federal, o enlace da transmissão chegou ao tenente-coronel Mauro Cid e foi compartilhado entre militares vinculados ao governo Jair Bolsonaro. Por essa razão, a PF incluiu Cerimedo entre os 37 denunciados no inquérito que apurou a suposta tentativa de golpe de Estado, evidenciando seu papel na elaboração de táticas para macular a credibilidade do sistema eletrônico de votação.
O laço com os Bolsonaro também se estende ao filho do ex-presidente. Eduardo Bolsonaro, filho 03 de Jair Bolsonaro, mantém proximidade com o argentino. Em 2022, encontrou-se com Cerimedo em Buenos Aires. O correspondente brasileiro do Diário da Direita, Giovanni Larosa, integrou a delegação, tendo recebido recursos da campanha de Eduardo à Câmara dos Deputados para atividades de divulgação.
Os tentáculos da operação se estendem pelo continente. No Chile, a empresa de Cerimedo, a Numen, ficou conhecida por um levantamento realizado antes do plebiscito constitucional de 2020, que indicava uma aproximação numérica entre o Apruebo e o Rechazo, posição defendida pelo argentino. Os dados contrariam praticamente todas as demais sondagens sobre a elaboração de uma nova carta magna chilena. O desfecho real foi uma vitória de 78 por cento do Apruebo. Investigações posteriores revelaram que o levantamento foi financiado por empreendedores favoráveis ao Rechazo.
Na Argentina, Cerimedo tornou-se marqueteiro da campanha de Javier Milei. Na Bolívia, aproximou-se do presidente Rodrigo Paz. Na Espanha, asociou-se ao empresário e influenciador Javier Negre, que chegou a anunciar participação acionária no Diário da Direita, presente também no México. A lógica é transcontinental.
Para executar seu império de falsificações, Cerimedo utilizou granjas de robôs, estrutura capaz de simular um fenômeno de massa. Contas automáticas replicam mensagens, etiquetas digitais e investidas hostis; perfis genuínos absorvem o conteúdo; influenciadores o reproduzem; portais de notícias o transformam em pauta; parlamentares o incorporam aos seus discursos. O algoritmo conclui o processo.
A detenção de Cerimedo representou, portanto, uma abertura imprevista para um mecanismo já documentado há anos. No Brasil, a engrenagem auxiliou na disseminação da teoria conspiratória sobre fraude eleitoral. No Chile, pesquisas controversas e operações digitais foram empregadas para distorsionar a percepção do electorado. Agora, na Bolívia, a descoberta concreta de equipamentos confere materialidade a algo que até então parecia existir exclusivamente nas telas.
Fonte: Últimas Notícias – Metro 1