As ruas de Irajuba, município do Centro-Sul baiano, nunca tinham testemunhado uma mobilização tão peculiar. No dia 1º de outubro de 2000, enquanto as urnas revelavam o nome do novo prefeito, o vencedor passava seus dias trancado em uma cela do Conjunto Penal de Jequié. A cidade elegeu, pela primeira e única vez na história da Bahia, um mandatário que não pôde realizar uma única appearances pública durante toda a corrida eleitoral.
Humberto Solon Sarmento Franco, 55 anos na época, alcançou 54,07% dos sufrágios válidos mesmo derrière as grades. Conhecido popularmente como Betão, ele amargava a prisão desde 14 de julho daquele ano, quando um mandato de prisão preventiva foi cumprido pela Justiça de Patrocínio, cidade do Triângulo Mineiro. A acusação envolve suposta participação em uma organização criminosa especializada em roubos e receptação de cargas roubadas nas estradas brasileiras.
A família Franco construiu um verdadeiro império político no município. Antes de Betão assumir a liderança, seus pais já haviam ocupado o cargo de prefeito após a emancipação de Irajuba, em 1962. O patriarca Abílio de Sena Franco foi um dos articuladores da independência administrativa da cidade. Enquanto isso, Betão consolidava sua trajetória empresarial, gerenciando uma rede de postos de combustível e participando da administração de empreendimentos familiares.
A campanha prosseguiu mesmo com o candidato custodiado. Sua esposa, Maria Aparecida, antiga prefeitos da cidade, comandou os atos de mobilização ao lado de correligionários da coligação PPB e PTB. Os organizadores relataram dificuldades pela ausência do postulante, mas o nome de Betão seguia forte nas conversas de bar e nas portas de igreja.
A estratégia funcionou porque Betão cultivava uma imagem de benfeitor. Antes da prisão, ele coordenava um programa de construção de moradias para famílias de baixa renda e havia reformado dezenas de imóveis na região. A distribuição sistemática de alimentos também estava entre suas iniciativas. Quando a polícia o levou, muitos moradores passaram a enxergar a operação como uma injustiça, fortalecendo ainda mais a identificação com o candidato.
A eleição enfrentou como principal concorrente Antonio Oliveira Sampaio, do PFL, que obteve 45,93% dos votos. A vitória de Betão foi sacramentada em meio a uma crise nacional de roubo de cargas, que motivou a abertura de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito no Congresso Nacional. O então deputado federal Oscar Andrade, de Rondônia, conduziu as investigações entre 2000 e 2003, solicitando a quebra de sigilos bancários e fiscais do empresário.
As acusações formais contra Betão incluíam estelionato, crimes eleitorais, crimes contra a liberdade sexual e receptação. A polícia apreendeu mercadorias roubadas em diversas regiões da Bahia, e o filho dele, Humberto Júnior, também acabou detido durante as apurações. Nenhum dos processos, contudo, resultou em condenação penal com trânsito em julgado, o que manteve sua elegibilidade intacta diante da legislação eleitoral.
Vinte dias após o escrutínio, em 21 de outubro de 2000, o Tribunal de Justiça da Bahia concedeu habeas corpus ao prefeito eleito. A libertação foi celebrada com manifestações nas ruas, e Betão finalmente pôde encontrar seus apoiadores pessoalmente. A cena ficou registrada como um dos episódios mais marcantes da política nordestina.
Após assumir o mandato, Betão conseguiu a reelegerção em 2004, agora filiado ao PFL. Nas tentativas seguintes, em 2012 e 2016, amargou derrotas. Aos 81 anos, o ex-gestor ainda mantém dialoga com lideranças estaduais, como o deputados Claudio Cajado e Euclides Fernandes, segundo informações de pessoas próximas.
Fonte: A TARDE