Na madrugada, antes mesmo do sol nascer, dezenas de pessoas já se aglomeram em frente às unidades de saúde de Jequié, no Vale do Jiquiriçá. Idosos, trabalhadores e pacientes cronicos dividem o mesmo espaco ao ar livre, estendendo caixas de papelao no chao frio para marcar posicao na fila. A cena, que se repete diariamente, revela um triste retrato da saude publica municipal.
Mesmo com um orcamento robusto e a injecao de mais de R$ 186 milhoes na pasta da Saude durante o ano de 2025, os moradores convivem com uma realidade de longas esperas e promessas frustradas. Quem chega antes da aurora nao garante atendimento garantido.
"Fui as duas da manha e voltei pra casa de maos vazias. Isso e uma falta de respeito com a vida das pessoas", registrou um morador, que preferiu nao se identificar. O relato epitomiza a experiencia de muitos que buscam atendimento basico nos postos espalhados pela cidade.
A situacao coloca a rede municipal de saude no centro das queixas dos usuarios do Sistema Unico de Saude em toda a regiao. As principais reclamacoes apontam para a ausencia constante de profissionais medicos nas unidades, a morosidade absurda para procedimentos considerados simples, a falta recorrente de medicamentos de uso continuo nas farmacias populares e o estado precario das instalacoes fisicas que abrigam as Unidades Basicas de Saude.
"Pagamos nossos impostos e nao vemos resultado nenhum. E revoltante", criticou outro cidadao que aguardou horas na UBS Almerinda Lomanto.
A gestao da pasta esta sob o comando da secretaria Mariana Vaz, casada com o prefeito Flavio Santana. O contraste entre os recursos financeiros destinados ao setor e o caos enfrentado pelos pacientes na ponta tem causado indignacao popular e demandas por maior transparencia nos gastos publicos.
O gargalo na atencao basica provoca um efeito dominó em toda a regiao. Sem acompanhamento preventivo eficiente, doencas que poderiam ser tratadas precocemente evoluem para casos graves, sobrecarregando o Hospital Geral Prado Valadares. A superlotacao da unidade estadual compromete todo o sistema de regulacao de leitos do interior baiano.
Os numeros do orcamento municipal impressionam: com receitas proximas de R$ 1 bilhao, Jequie teria condicoes de estruturar uma rede de atencao primaria de excelencia e ate gerenciar um hospital propio. Na pratica, porem, a cidade segue sem nenhuma unidade hospitalar sob gestao municipal.
O comparativo com municipios vizinhos evidencia o descompasso. Maracas, com receita de R$ 200,47 milhoes, mantem o Hospital Municipal Dr. Alvaro Bezerra em pleno funcionamento. Jitauna, orcada em R$ 148,60 milhoes, conta com o Hospital Municipal Nossa Senhora de Fatima. Itagi, com R$ 127,77 milhoes, opera um Hospital de Pequeno Porte.
Sem estrutura propria para atender casos de media complexidade, os moradores de Jequie dependem exclusivamente de unidades geridas por outras esferas de governo, como o HGPV, a UPA, a Policlínica Regional e a Santa Casa de Misericordia. Essa dependencia deixa exposta a incapacidade da rede municipal em atender sua propria demanda.
A reportagen entrou em contato com a Prefeira de Jequie e aguarda posicionamento sobre as denuncias.
Fonte: A TARDE