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A história de Vicente Barreto: o compositor baiano que transformou vivências do interior em músicas que marcaram a MPB

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Fonte: A TARDE
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Aos 76 anos, Vicente Barreto ainda guarda consigo o violão como companheiro inseparable de todos os dias. Foi nesse instrumento que o menino que animava as tardes na praça central de Serrinha, no interior da Bahia, transformou as sonoridades ouvidas em casa — o violão do pai, o violão do avô, o som da sanfona — em uma das carrieras mais consistentes da música popular brasileira.

A relação entre a origem e a criação musical ficou clara para Vicente muito depois de já estar compondo. Morando em São Paulo, decidiu voltar a Serrinha após ouvir, em um programa de televisão, um estudioso falar sobre a forte musicalidade da região de Conceição do Coité. Na volta, um encontro marcante: um homem do campo que, com simplicidade, afirmou ser um artista. "Eu achei aquilo de uma certeza absoluta", lembra Vicente, emocionado ao recountar a cena.

Sem professor e aprendendo de ouvido, o jovem Vicente se destacava tocando as músicas da Jovem Guarda, acompanhando a explosão de Roberto Carlos e do iê-iê-iê. "Eu criei uma coisa minha, uma levada muito independente, muito baseada no som da sanfona", conta. Luiz Gonzaga e conjuntos nordestinos também faziam parte da escutaformação daquele que ficaria conhecido como "o menino do violão".

A descoberta de João Gilberto representou uma reviravolta. "Aí minha vida parou", resume. A voz, o violão e as canções de Tom Jobim abriram outra possibilidade musical. Depois veio Gilberto Gil, e Vicente passou a pesquisar mais sobre a produção musical baiana e brasileira. A ajuda de um amigo de Salvador, que tinha uma coleção de discos, permitiu conhecer Caetano Veloso, Edu Lobo, Bob Dylan e outros artistas.

A amizade com Caetano Veloso começou por intermédio de amigos em comum. Vicente passou a frequentar a casa do cantor em Ondina, na capital baiana, levando suas composições. Como é comum na Bahia, Caetano passou a chamá-lo pelo nome da cidade de origem: Serrinha. "Até hoje ele me chama de Serrinha", conta o compositor.

Antes disso, o produtor Roberto Santana, natural de Irará, já havia aberto caminhos profissionais para Vicente. Ao preparar um disco do Quinteto Violado, pediu que ele mostrasse uma composição. Vicente escolheu Baião do Quenji, parceria com Fábio Paes, que acabou gravada no álbum Berra Boi. Roberto Santana também levou uma gravação ao Rio de Janeiro, apresentada a Roberto Menescal, que quis saber quem tocava aquele violão tão particular.

A ida ao Rio de Janeiro permitiu a gravação com o Quinteto Violado, o lançamento de um compacto e viagens pelo Norte e Nordeste. Por sugestão de Roberto Santana, Vicente seguiu para São Paulo, onde vive há 56 anos. Na capital paulista, recebeu o Título de Cidadão Paulistano em 2024.

Foi em São Paulo que nasceu uma das músicas que mudaria definitivamente sua trajetória. Em 1980, enquanto gravava seu primeiro álbum, Vicente acordou em uma manhã, pegou o violão e começou a trabalhar sobre uma melodia. Era Morena Tropicana. Mostrou a novidade ao cantor Alceu Valença, que colaborou na criação da letra. Aos poucos, a canção foi tomando a forma que a tornaria conhecida em todo o Brasil.

Ao longo das décadas, a parceria se tornou uma das marcas do trabalho de Vicente. Composeu com Paulo César Pinheiro, Vinicius de Moraes, Hermínio Bello de Carvalho e, especialmente, com Celso Viáfora, com quem mantém uma relação de mais de 40 anos. "Vicente é meu primeiro parceiro e virou um parceiro da vida", afirma Viáfora. "Praticamente não há disco de minha carreira que não tenha ao menos uma parceria com ele."

A amizade com Osmar Lazarini, o Sonekka, também resultou em colaborações importantes. Os dois se conheceram no fim dos anos 1980, mas passaram a conviver mais intensamente no início dos anos 2000. A parceria rendeu os álbuns Na Força e na Fé e Só Eu e o Sol. Para Sonekka, Vicente é "um grato amigo, um trabalhador incansável da canção".

O capítulo mais recente dessa história tem Zeca Baleiro como parceiro. O encontro entre os dois começou décadas antes, quando Vicente fazia muitos shows no Maranhão e o jovem Zeca, ainda adolescente, assistiu a várias apresentações. O reencontro aconteceu durante a pandemia, e os dois passaram a trabalhar à distância. "Eu fazia as melodias, mandava para ele, ele me mandava as letras. Fizemos 40 músicas", conta Vicente.

Do acervo de composições desenvolvidas pela dupla, 12 foram selecionadas para o álbum Sembal, produzido por Rafa Barreto, filho de Vicente. O disco alterna canções mais trabalhadas em estúdio com momentos mais espontâneos do encontro entre os dois artistas. Para Baleiro, o trabalho aproxima dois artistas cuja relação começou pela admiração: "Vicente é um compositor fundamental na história da música brasileira. Um melodista da melhor estirpe."

Manter o espirito do menino que animava a praça de Serrinha é, para Vicente, uma atividade diária que exige dedicação. "Os artistas trabalham e muito. Eu toco todos os dias até hoje", afirma. "O meu trabalho, a minha dedicação, a vida inteira é a música. Eu nasci artista."

Fonte: A TARDE

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