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A saga dos diamantes que transformou o sertão baiano em referência mundial do ecoturismo

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Fonte: A TARDE
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No coração da Bahia, a cidade de Lençóis preserva um passado que mistura cobiça internacional e riqueza natural. Durante o auge do ciclo dos diamantes, o município chegou a figurar entre os maiores produtores mundiais da gema preciosa, atraindo olhares de tão longe que o governo da França instalou um vice-consulado na região. Mais de um século depois, o que restou da febre do garimpo deu lugar a outro tesouro: os 152 mil hectares de quedas-d'água, formações rochosas e grutas protegidos pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina.

A descoberta dos primeiros diamantes aconteceu em 1844, nas margens do rio Cumbucas, em Mucugê. Um ano depois, garimpeiros avançaram serra acima e fundaram o povoado que receberia o nome de Lençóis, uma referência às tendas brancas que cobriam o vale quando vistas de cima. Entre 1845 e 1871, a região manteve o título de maior produtora global de diamantes e ocupava a terceira posição entre os centros mais relevantes da Bahia, segundo registros do IPHAN. O cenário mudou completamente quando novas jazidas foram encontradas na África do Sul, provocando o êxodo dos garimpeiros e o abandono de comunidades inteiras.

Décadas depois, antigos moradores transformaram o domínio que tinham sobre trilhas, cavernas e caminhos serranos em uma nova fonte de renda: o turismo guiado. A criação do Parque Nacional, em 1985, selou essa transição e impulsionou o desenvolvimento do ecoturismo na região.

A diversidade biológica representa outro diferencial da Chapada Diamantina. Dentro dos limites da unidade de conservação, coexistêm Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga sob a administração do ICMBio. O parque abriga quase 300 quilômetros de trilhas, 33 cachoeiras catalogadas e formações rochosas originárias do Pré-Cambriano. Com 2.033 metros de altitude, o Pico do Barbado representa o ponto mais elevado de todo o Nordeste. A vegetação varia conforme a altitude, que oscila entre 500 e mais de 2 mil metros, abrigando espécies como bromélias, orquídeas e sempre-vivas. A fauna inclui jaguatiricas, tamanduás-bandeira, guigós-da-caatinga e centenas de espécies de aves.

A Cachoeira da Fumaça se destaca entre as atrações, com seus aproximadamente 380 metros de queda que transformam a água em névoa antes de tocar o solo. O acesso pela parte superior possui 6 quilômetros de trajeto com dificuldade leve. O Morro do Pai Inácio, a 1.120 metros de altitude, oferece uma visão panorâmica de 360 graus e uma subida íngreme de cerca de 20 minutos até o topo, conhecido pelos pores do sol inesquecíveis. O Poço Azul contém fósseis de preguiças gigantes no fundo e é reconhecido como o maior sítio paleontológico submerso do Brasil, permitindo a prática de flutuação em águas cristalinas.

Em Ibicoara, uma caminhada de 3 quilômetros leva até a Cachoeira do Buracão, onde um cânion estreito é cercado por paredões avermelhados e uma impressionante queda-d'água. Igatu, apelidada de Machu Picchu baiana, mantém ruínas em pedra e a Galeria Arte e Memórias, um museu ao ar livre dedicado à história do garimpo. Marimbus, a aproximadamente 45 minutos de Lençóis, é conhecido como o Pantanal da Chapada e pode ser explorado de canoa, onde é possível avistar capivaras e jacarés.

O Vale do Pati se destaca entre os percursos de trekking mais belos do Brasil, cruzando cânions, rios e mirantes em trajetos de 3 a 5 dias. Cerca de 50 moradores continuam residindo na região e hospedam caminhantes em suas casas, oferecendo refeições preparadas em fogão a lenha. O trajeto inicia em Guiné, distrito de Mucugê, e pode encerrar no Vale do Capão ou em Andaraí, com destaques para o mirante do Morro do Castelo e o Cachoeirão, com seus 270 metros de queda. A contratação de um guia local é obrigatória e costuma ser feita por agências em Lençóis.

Lençóis serve como principal base turística, oferecendo pousadas, restaurantes e agências. O centro histórico, tombado pelo IPHAN em 1973, conserva casarões do século XIX adaptados para cafés e hospedagens. À noite, a Rua das Pedras recebe apresentações de música ao vivo e reúne moradores e visitantes. O Vale do Capão apresenta uma atmosfera mais pacata, com comunidades alternativas convivendo harmoniosamente com agricultores em meio ao silêncio da serra. Em Mucugê, o cemitério bizantino de Santa Isabel mantém mausoléus que reproduzem fachadas de igrejas, vestígios do período do garimpo.

A gastronomia local combina receitas tradicionais do sertão baiano com influências da era do garimpo. O godó de banana, um ensopado de banana-da-terra com carne seca, é encontrado no Mercado Municipal de Lençóis. O feijão de corda com carne de bode representa a combinação sertaneja tradicional, servida em restaurantes caseiros de Mucugê e Andaraí. O beiju recheado, semelhante a um crepe de tapioca, aparece nas feiras com recheios doces ou salgados. Piatã, a 1.260 metros de altitude e considerada a cidade mais alta do Nordeste, produz o Café da Chapada, reconhecido em premiações nacionais.

Lençóis fica a aproximadamente 420 quilômetros de Salvador. De carro, o percurso pelas estradas BR-324, BA-052 e BR-242 leva entre 5 e 6 horas. A empresa Real Expresso/Guanabara opera três viagens diárias saindo da Rodoviária de Salvador. Voos da Azul ligam a capital ao Aeroporto Horácio de Matos, localizado a 20 quilômetros do centro de Lençóis, com operações em dias específicos da semana.

A Chapada Diamantina preserva marcas deixadas por garimpeiros, coronéis e tropeiros que moldaram o interior baiano. Hoje, os mesmos caminhos que essas figuras percorreram conduzem por trilhas que atravessam três biomas, passam por vilas com características únicas e revelam áreas onde o silêncio da serra permanece absoluto. A região consegue reunir em um único destino uma história forjada pela corrida dos diamantes e uma natureza que se tornou seu maior patrimônio. Entre montanhas, cachoeiras e trilhas antigas, a Chapada Diamantina mantém vivo um passado que chegou a conquistar até o interesse da França.

Fonte: A TARDE

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