A gestão municipal de Salvador colocou em prática, nesta quinta-feira (17), uma operação de retirada de detritos no Parque Municipal do Manguezal do Rio Passa Vaca, localizado no bairro de Patamares. A mobilização contou com profissionais da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal, agentes da Empresa de Limpeza Urbana de Salvador, representantes da Fundação Vovó do Mangue, habitantes da comunidade e colaboradores voluntários da região.
A atividade de conservação aconteceu um dia após o prefeito Bruno Reis oficializar a criação efetiva dos parques do Passa Vaca e de Mussurunga. Somente para a desapropriação do terreno do Passa Vaca, o governo municipal aplicou R$ 31 milhões, assegurando a preservação de quase 19 mil metros quadrados de vegetação de mangue.
Durante a mobilização, os voluntários recolheram lixo sólido que estava preso entre as plantas e nas bordas do rio. Os detritos chegam ao local trazidos pelas correntes do Rio Passa Vaca e do Rio Jaguaribe, impulsionados pela maré, além de serem descartados de forma clandestina nas ruas do entorno.
O comandante da pasta responsável pelo meio ambiente, Ivan Euler, declarou que a ação representa uma das primeiras etapas do plano de reabilitação e proteção da área. “Neste momento, a Prefeitura está presente aqui, ao lado dos moradores, penetrando no mangue para remover os resíduos que vêm do oceano e do próprio Rio Passa Vaca”, explicou o gestora.
Ainda segundo Euler, a expectativa é de que a Secretaria Municipal de Manutenção execute, na semana seguinte, a instalação de cercas ao redor do parque. A medida visa demarcar os limites do espaço, impedir ocupações irregulares e coibir práticas que possam prejudicar o equilíbrio ambiental. “Além de constituir um parque, esse local é um manguezal classificado como Área de Preservação Permanente. O projeto protege essa APP e evita invasões futuras ao ecossistema”, completou.
O Rio Passa Vaca tem sua nascente na região de São Rafael, atravessa a Avenida Paralela, corta Patamares e se encontra com o Rio Jaguaribe próximo ao litoral. O manguezal presente nesse trecho representa o último vestígio desse tipo de ecossistema ao longo de toda a Orla Atlântica de Salvador. A unidade de conservação foi estabelecida oficialmente por decreto governamental em 2009, porém a regularização fundiária permanecia inconclusa. Com o pagamento da compensação ao antigo dono, o terreno passou a integrar o patrimônio público da cidade.
A especialista em engenharia ambiental e saneamento Lairrane Ferreira, vinculada ao Sistema de Áreas de Valor Ambiental e Cultural, destacou que a remoção do lixo constitui a fase inicial de um trabalho contínuo. “O fundamental é dar o primeiro passo. Precisamos começar porque há grande acúmulo de resíduos. Esta é apenas a etapa inaugural. É hora de arregaçar as mangas e ir direto ao assunto”, afirmou Lairrane.
Natural de Patamares, a ativista ambiental Joana Kakid está engajada há vários anos em campanhas voluntárias de despoluição no manguezal. Ela informou que essas iniciativas costumavam ser conduzidas por grupos reduzidos, sem a infraestrutura agora oferecida pela Prefeitura. “Antes, apareciam apenas 10 ou 15 voluntários. Agora, dispomos do aparato da Limpurb, além de colaboradores da Secis. Temos mais pessoas dedicando-se a essa causa coletiva”, descreveu Joana.
A colaboradora salientou que o comportamento das marés faz com que enorme volume de detritos fique acumulado no estuário. De acordo com a ambientalista, além das limpezas constantes, será essencial monitorar a condição da água e dos sedimentos, cercar o parque e desenvolver projetos de conscientização ecológica.
A Prefeitura estabeleceu cooperação com a Fundação Vovó do Mangue para instalar no local o primeiro Centro de Referência do Manguezal de Salvador. O equipamento abrigará iniciativas de investigação científica, criação tecnológica, acompanhamento ambiental e alfabetização ecológica. “Não será apenas um local de observação, mas também de aprendizagem sobre meio ambiente, investigação e monitoramento. As crianças terão contato direto com a natureza dentro do cenário urbano soteropolitano”, detalhou Euler.