O último fragmento de manguezal preservado em área urbana ao longo da orla atlântica de Salvador finalmente ganhará proteção efetiva. No dia 16 de setembro, a Prefeitura anunciou a consolidação do Parque Municipal do Manguezal do Passa Vaca, no bairro de Patamares, accompanied by um pacote de medidas para preservar o ecossistema que era reivindicado há décadas por ambientalistas e moradores da região.
Logo após o anúncio oficial, a gestão municipal promoveu um grande mutirão de limpeza no local, com a participação de voluntários. Durante a ação, foram removidos diversos resíduos sólidos que se acumulavam entre a vegetação e nas margens do curso d'água, como colchões, vasos e outros objetos descartados irregularmente. O lixo chegava ao manguezal através dos rios Passa Vaca e Jaguaribe, trazido pela maré e também depositado diretamente nas vias adjacentes.
A Secretaria de Manutenção da Cidade já trabaja na aquisição de materiais para instalar barreiras físicas ao redor da área, com o objetivo de coibir ocupações irregulares e práticas que possam prejudicar o ecossistema. Além da proteção física, estão previstas a instalação de uma ecobarreira, ações de recuperação da vegetação nativa e a implantação do primeiro Centro de Referência do Manguezal de Salvador.
"Durante muitos anos, esse parque existiu praticamente apenas no papel, desde sua criação por decreto em 2009. O que aconteceu em 16 de setembro representa uma conquista fundamental para nós, moradores que sempre defendemos esse espaço natural", afirma Joana Kalid, residente de Jaguaribe e ativista ambiental. Ela destaca que as medidas prometem preservar não apenas o local, mas toda a biodiversidade e os serviços ambientais que o ecossistema oferece à cidade.
Glicério Brito, presidente da Associação de Moradores e Empresários de Jaguaribe, lembra que o cuidado com o rio e o manguezal já fazia parte da rotina da comunidade muito antes da formalização institucional. "Em 2012, moradores da Rua Professor Raul Chaves já organizavam mutirões de limpeza voluntários. Com a criação da associação em 2024, passamos a ter uma voz oficial para reivindicar a recuperação desse patrimônio", explica.
A Fundação Vovó do Mangue, instituição nascida em 1997 na cidade de Maragogipe e dedicada à educação ambiental e recuperação de manguezais, será parceira na implantação do Centro de Referência do Manguezal. Carlinhos de Tote, coordenador de Educação Ambiental da fundação, detalha a importância do bioma para a região metropolitana.
"O manguezal funciona como uma barreira natural que protege a costa marítima e atua como filtro entre o continente e o oceano. Além disso, é um verdadeiro berçário marinho, pois mais de 60% das espécies de alto-mar utilizam essas áreas estuarinas para se reproduzir", explica Tote. Ele também destaca a rica fauna presente no local, com caranguejos, siris, aratus, sururus e ostras, além de diversas espécies de aves migratórias que encontram abrigo no manguezal durante suas viagens, que podem ir desde os Estados Unidos até a Patagônia.
Um dos aspectos mais relevantes do manguezal é sua eficiência no armazenamento de carbono. Por conta do solo permanentemente alagado e com baixo teor de oxigênio, a decomposição da matéria orgânica acontece de forma mais lenta, permitindo que o carbono permaneça retido nos sedimentos por centenas ou até milhares de anos.
"O manguezal absorve carbono e devolve oxigênio para a atmosfera, funcionando como um estabilizador climático. Por unidade de área, ele captura muito mais carbono do que algumas florestas tropicais. É uma lama que significa vida e responsável por mitigar questões climáticas globais", conclui Carlinhos de Tote.
O investimento total para garantir a proteção da área é de R$ 31 milhões. O parque possui aproximadamente 19 mil metros quadrados e abrange territories que se estendem desde a região de São Rafael, onde nasce o Rio Passa Vaca, passando pela Avenida Paralela, pelo bairro de Patamares, até desaguar no mesmo estuário do Rio Jaguaribe.
"Delimitar e proteger esse território é essencial para preservar a biodiversidade, fortalecer a resiliência climática e garantir a manutenção dos serviços ambientais. É um patrimônio natural que precisa ser protegido hoje para continuar beneficiando Salvador e as gerações futuras", afirma Ivan Euler, titular da Secretaria de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal.