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A artéria que não pulsa: como a Avenida Tancredo Neves se tornou o calcanhar de Aquiles do trânsito salvadorenho

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Fonte: A TARDE
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A cada manhã, milhares de motoristas enfrentam a mesma batalha: cruzar a Avenida Tancredo Neves sem perder a paciência — e o horário. Conexão vital entre os principais corredores comerciais da capital baiana, o trecho concentra uma densidade impressionante de shoppings, escritórios e empresas que atraem contingentes massivos de veículos todos os dias.

Números do Detran revelam a magnitude do desafio: dos 1,2 milhão de veículos registrados em Salvador, impressionantes 93% são de uso particular. Aproximadamente um terço dessa frota atravessa a Tancredo Neves diariamente, gerando retenções que se estendem por várias horas e variam conforme o turno — picos pela manhã, entre 13h e 14h, e no final da tarde, das 17h às 20h.

A Transalvador, órgão responsável pela gestão do trânsito municipal, identifica três pontos críticos na região: os entrelaçamentos próximos ao Salvador Shopping, as conexões com a Avenida Paralela e o cruzamento com a Magalhães Neto. Na rua Marcos Freire, onde se encontram diferentes correntes de tráfego, a configuração atual produz conflitos constantes entre os fluxos veiculares, exigindo monitoramento contínuo.

A última grande intervenção para desafogar a região foi a abertura do Viaduto José Linhares, que estabeleceu um corredor direto entre a área frontal do Shopping da Bahia, na Avenida ACM, até o Acesso Norte, facilitando o acesso à BR-324. De acordo com a Transalvador, a obra elevou a velocidade média em cinco pontos do entorno. Estudos do órgão indicaram evolução de 14% no índice de fluidez entre 2023 e 2025, com redução de 16% no tempo de viagem.

O viaduto integra o programa Nova Tancredo Neves, que contempla intervenções como o Complexo Viário Tatti Moreno — mergulhão entre a Tancredo e a Magalhães Neto —, a duplicação da ponte sobre o Rio Camarajipe, o pontilhão da Rua Marcos Freire e o Viaduto Duda Mendonça.

A arquiteta e urbanista Isadora Schefler, docente do Senai-Cimatec, manifesta preocupação com a proliferação de grandes estruturas na área. Embora reconheça que obras como o mergulhão tenham benefícios ao remover veículos da superfície, ela argumenta que viadutos criam barreiras físicas e visuais, agravando o efeito de ilhas de calor pelo uso intensivo de concreto. Para ela, a solução não pode se limitar a estruturas sobrepostas.

"Salvador caminha no sentido contrário das metrópoles globais, que têm derrubado viadutos e priorizado o pedestre e o cyclist", observa a especialista, defendendo investimentos no transporte público integrado — com melhores conexões entre ônibus, metrô e BRT — como alternativa para reduzir a dependência do automóvel.

A realidade dos moradores revela o impacto cotidiano. A professora Raquel Rocha, que vive há quase duas décadas no Loteamento Alphaville I, na Paralela, precisa sair do trabalho antes do meio-dia para buscar os filhos na escola e ainda retornar ao serviço. "Às vezes, levo mais de uma hora nesse percurso", relata. Ela também aponta a dificuldade de acessar pistas e cruzamentos na região do Shopping da Bahia. "Os motoristas disputam os acessos, que são muitos comprimidos num espaço curto. É confuso e até perigoso."

O gestor de condomínio Eduardo Machado, residente no Stiep, considera o retorno do viaduto menuju ao Salvador Shopping o trecho mais caótico. "Há uma confusão permanente entre veículos que querem entrar no shopping, seguir para a Tancredo ou para o Caminho das Árvores. O problema se agrava entre 17h e 19h", descreve. Ele também critica a faixa de retorno destinada aos ônibus do BRT na ligação Iguatemi-Paralela.

Eduardo defende que o poder público compartilhe a responsabilidade com os empresário, uma vez que novos empreendimentos comerciais e educacionais continuam surgindo na região, sem que a infraestrutura de estacionamentos acompanhe o crescimento. "Onde as pessoas vão deixar seus carros?" questiona.

Enquanto as autoridades estudam alternativas de reorganização viária — incluindo possíveis intervenções em desnível —, motociclistas como Vitória Santana seguem adaptando-se. "Quem está com pressa acaba migrando para a moto", resume a motorista por aplicativo, que há três meses trabalha na região e reconhece o entorno do Shopping da Bahia como rentável pela oferta de clientes, porém hostil para circular.

Fonte: A TARDE

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