A imagem de uma aeronave Gulfstream G400 tocando o solo de Opa-locka, em Miami, com Flavio Bolsonaro e familiares dentro, encerra um percurso que começou com uma travessia a pé da fronteira brasileira em Foz do Iguaçu, seguiu com um voo particular a partir de Puerto Iguazú e incluiu uma conexão em Guayaquil. O cenário poderia pertencer a um roteiro cinematográfico sobre uma fuga.
Flavio descumpriu uma determinação do ministro Alexandre de Moraes para devolver os passaportes, dentro de uma investigação sobre possíveis crimes de lavagem de dinheiro, optando por evadir-se por medo. Trata-se de mais um capítulo da tentativa da família Bolsonaro de projetar dúvidas sobre a democracia brasileira. Após recusar por meses aceitar a derrota para o presidente Lula, que veio por uma margem de mais de 4,4 milhões de votos, Flavio reproduz o padrão: questiona sem apresentar evidências, posiciona-se como vítima e busca abrigo no exterior.
O aspecto positivo reside na solidez das instituições democráticas brasileiras. O processo eleitoral, certificado pelo Tribunal Superior Eleitoral e acompanhado por organismos internacionais, permanece intacto. A questão delicada está no desdobramento posterior. Flavio não apenas se afasta da Justiça brasileira; viaja aos Estados Unidos para se reunir com o irmão Eduardo Bolsonaro, igualmente fora do país, e com grupos que parecem preparados para articular uma dissidência paralela contra o Brasil.
Isso representa uma ameaça direta à soberania nacional: fazer oposição política a partir de um governo estrangeiro, recebendo apoio logístico e espaço político. Donald Trump, preocupado com as eleições legislativas de novembro, condicionou sua aceitação dos resultados eleitorais à sua própria avaliação de honestidade, sem apresentar provas concretas. Ele também classificou o processo eleitoral brasileiro como muito suspeito e elogiou Flavio e sua família como pessoas de qualidade. A mensagem é clara: Trump deseja influenciar o destino do Brasil conforme seu próprio julgamento.
Duas nações democráticas não podem ficar vulneráveis aos caprichos de quem impõe condições políticas. O Brasil demonstrou que sua democracia não depende de interferências autoritárias externas. Cabe ao poder judiciário fazer cumprir a lei e à sociedade brasileira reconhecer que fuga não se confunde com exílio, evitando cair em narrativas enganosas.
Fonte: A TARDE