A permanência dos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro em território norte-americano virou alvo de críticas nas plataformas digitais dos Estados Unidos. No final de outubro, uma mobilização nas redes sociais pedindo a transferência dos dois de volta ao Brasil ganhou força tanto no Brasil quanto no exterior, colocando a gestão Donald Trump em uma posição delicada frente à sua própria política migratória.
Identificada pela marcação #DeportTheBolsonaros, a campanha ganhou impulso após a chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, em 27 de outubro, sem apresentar passaporte. As publicações criticam a presença do senador brasileiro no país em meio à polêmica sobre uma decisão do Supremo Tribunal Federal determinando a entrega de seus documentos de viagem. O movimento também menciona Eduardo Bolsonaro, que já se encontrava nos Estados Unidos após deixar o Brasil.
A mobilização ultrapassou as fronteiras das redes brasileiras e passou a reunir manifestações de ativistas, influenciadores e representantes da política norte-americana. Entre os que apoiaram a causa está Isaiah Martin, candidato democrata ao Congresso pelo Texas, que defendeu publicamente a expulsão dos irmãos.
Para o professor de Relações Internacionais Neuton Silva Neto, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Bahia e doutorando em Ciências Militares, a repercussão nas redes evidencia um problema político para a administração Trump. Em entrevista exclusiva, ele aponta que a entrada de Flávio sem passaporte evidenciou uma contradição entre a postura do governo americano em relação à imigração e o tratamento concedido ao parlamentar brasileiro.
"Acredito que o governo norte-americano esperava que a saída de Flávio fosse interpretada de forma neutra pelos eleitores, mas ocorreu o contrário. A entrada sem passaporte nos Estados Unidos revelou uma contradição em relação à política migratória do país. Já existe uma contestação da presença de Flávio entre eleitores, tanto democratas quanto republicados, incluindo temas em alta no TikTok. Isso fez com que Marco Rubio negasse formalmente que contribuiu com a fuga. Nesse momento, a presença de Flávio lá dificulta um resultado mais favorável aos republicano nas eleições."
Além do desgaste causado pela circulação do tema nas plataformas digitais, o episódio pode gerar desdobramentos no cenário institucional dos Estados Unidos. Uma eventual perda da maioria republicana no Congresso poderia ampliar a pressão sobre membros da administração Trump, especialmente em questões de política externa e relações com o Brasil.
Na avaliação de Neuton Silva Neto, no entanto, uma mudança na composição do Legislativo norte-americano não teria força suficiente para determinar diretamente a extradição dos irmãos Bolsonaro. O professor destaca que os efeitos poderiam aparecer principalmente nas discussões conduzidas pelo Departamento de Estado, incluindo o princípio da reciprocidade nas relações entre os dois países e as tensões comerciais envolvendo a política de tarifas.
"A perda da maioria não geraria um impacto maior, como a extradição dos irmãos Bolsonaro, mas conseguiria gerar pressão do Departamento de Estado, principalmente no debate sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos e questões de reciprocidade, a política de tarifas incluída. Mas também podemos ver a ocorrência de investigações sobre a participação de agentes do governo na fuga. A decisão sobre a extradição envolve muito o Executivo. Nesse caso, os irmãos Bolsonaro devem torcer muito para que Trump não perca as eleições presidenciais."
O especialista também considera a possibilidade de investigações sobre a participação de agentes do governo norte-americano na saída de Flávio do Brasil. Nesse cenário, a repercussão da mobilização digital e a pressão política sobre a gestão republicana podem ampliar o debate sobre a permanência dos irmãos Bolsonaro nos Estados Unidos.
Fonte: A TARDE