O filme 'Todo o Sentimento' ocupa lugar de destaque na programação do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, integrando a Mostra Competitiva de Longas Metragens. A obra representa o regresso da dupla de diretores Glenda Nicácio e Ary Rosa ao evento que apresentou 'Café com Canela' em 2016, marcando uma década de carreira cinematográfica que também inclui 'Ilha' e outros títulos produzidos pela dupla, originalmente de Minas Gerais mas radicada em Cachoeira, na Bahia.
Na narrativa, Henrique, interpretado por Aldri Anunciação, surge como um cineasta amargurado que vive recluso em um casarão colonial. Após um acidente que o deixou em cadeira de rodas, o personagem precisa do auxílio de Gustavo, interpretado por Lucas Leto, para lidar com as dificuldades cotidianas. A história se desenvolve em um Brasil marcado por um cenário que beira o pós-apocalíptico, onde uma tentativa de golpe concretizada em janeiro de 2023 desencadeou uma onda de conservadorismo, inúmerito e perseguição que tomou conta do país.
Em conversa com Ary Rosa, roteirista e codiretor do longa, o cineasta explicou o processo de revisitar personagens e obras anteriores. Para ele, revisitar trabalhos significa, acima de tudo, revisitar o Brasil. Desde o surgimento de 'Café com Canela', o país passou por transformações em escalas e naturezas inimagináveis que atualizam constantemente as obras e as reflexões sobre elas. Os personagens se transformam diante dessa realidade que machuca e impõe situações de permanente negociação.
O roteiro retorna ao universo de 'Ilha' através do personagem Henrique. Ary Rosa destaca que a ficção inicial do filme, baseada nos eventos de 8 de janeiro, representa para ele a maior ficção da obra, entrando como um quase documentário que reflete sobre um país que pode mudar a qualquer momento. A narrativa do Brasil perdeu a previsibilidade que parecia existir nos anos 1990 e 2000, alterando-se completamente a partir de 2013 e 2014, o que atravessa todos os trabalhos da dupla.
O filme também aborda a interferência das decisões políticas nacionais na vida do Recôncavo Baiano, microcosmos criado pelos cineastas para suas narrativas. O que se decide em Brasília chega de formas que a imaginação pode render, construindo uma reflexão sobre como decisões majoritárias invadem a intimidade individual e sobre o risco iminente de retrocessos democráticos.
A dupla de diretores pensa seu trabalho como construção de um universo fílmico próprio, não apenas como obras isoladas. Entre os filmes que construíram esse universo estão 'Voltei!' e 'Até o Fim', produções independentes realizadas com recursos próprios. A linha narrativa escolhida atravessa questões raciais, de gênero e o universo do interior baiano, sempre em paralelo com uma crítica social, explorando diferentes gêneros como comédia e musical, porém mantendo a reverência ao Recôncavo Baiano como traço marcante.
O filme também utiliza elementos cômicos através de personagens interpretados por Jackson Costa, Frank Menezes, Arlete Dias, Alan Miranda e Wall Diaz, que aparecem em programas de televisão sensacionalistas. Esses personagens funcionam como caricaturas que invertem o jogo, representando a simplificação do pensamento político e social presente em parte da mídia. Henrique e Gustavo themselves se tornam a caricatura ao tentarem performar para a sociedade.
Um momento simbólico do longa ocorre quando Aldri Anunciação fala sobre o casarão colonial onde vive. A casa, que possivelmente já abrigou senhores e escravos, representa as fissuras históricas da sociedade brasileira. Henrique conseguiu comprá-la, dando a volta por cima, mas a sociedade constantemente tira e devolve. Em seu pior momento, o personagem está em uma casa que tem outro significado, lembrando que o mundo dá voltas e que a história é cruel.
A montagem, assinada por Renan Bozelli, utilizou câmera fixa durante todo o filme, contrastando com os cortes frenéticos de 'Ilha'. Essa escolha reflete o momento de paralisia do protagonista e do país. Apenas na última sequência, a fogueira, a câmera retorna ao estilo handheld, evocando a liberdade de 'Ilha'. O filme apresenta planos abertos onde a solidão está muito presente, sendo a única produção da dupla filmada inteiramente no tripé.
Ary Rosa falou ainda sobre a colaboração com Aldri Anunciação, describindo-o como um ator genial, dos melhores que já viu performar, além de dramaturgo e parceiro inspirador. O diretor também elogiou Lucas Leto, ator emergente do Bando de Teatro Olodum que agora integra o elenco da Globo, destacando o encontro entre os dois interpretações no filme. A equipe encontra-se em gravação de uma série derivada de 'Café com Canela' para o Canal Brasil, mantendo a parceria com Anunciação.
Fonte: A TARDE