O Pelourinho, coração histórico de Salvador, volta a pulsar com arte e reflexão a partir desta quarta-feira. A sixth edição da Festa Literária Arte e Identidade promete três dias intensos de programação gratuita, reunindo manifestações culturais que dialogam com a riqueza afro-brasileira. O mote deste ano explora uma ideia provocadora: o futuro pode — e deve — ser construído a partir das raízes ancestrais.
Entre os dias 16 e 18 de setembro, o Centro Histórico da capital baiana se transformará em um grande circuito cultural. Exposições, performances musicais, espetáculos de dança, desfiles de moda, peças teatrais, sessões cinematográficas, produções visuais e experiências tecnológicas ocuparão espaços tradicionais da cidade. As atividades são voltadas especialmente ao público infantojuvenil negro, indígena e afro-indígena.
A cerimônia de abertura está marcada para as 15h de quarta-feira, no Espaço Comunitário designatedado para o público jovem, localizado no Largo Quincas Berro D'Água. O momento terá como destaque a conferência que traz como título a proposição central do festival: Afrofuturismo — O futuro é Ancestral. A artista Larissa Luz, conhecida por sua atuação como cantora, atriz e apresentadora, estará presente ao lado do empresário Paulo Rogério Nunes, com a condução da educadora Lindinalva Barbosa.
A mesa redonda propõe um debate sobre a urgência de voltar o olhar para as referências históricas como forma de projetar sociedades mais justas. Nunes enfatiza que os caminhos futuros estão em constante construção e podem tomar direções diversas, dependendo das escolhas presentes.
As matrizes de saber afro-indígenas ocupam papel central nessa construção, segundo os organizadores. Os participantes terão a oportunidade de compreender como essas tradições podem ensinar sobre colaboração, justiça e inclusão na elaboração de novos cenários sociais.
Na quinta-feira, o evento recebe as crianças com uma proposta que combina ritmo e literatura. O Sarau da Infância, previsto para as 10h50 no Espaço Infant Brilho, no Largo Tereza Batista, será conduzido por Duda Santhana, uma jovem de apenas 11 anos que já se destaca como declamadora, atriz e modelo. A atividade mescla composições próprias com elementos característicos do hip-hop e dos slam de poesia, convidando os pequenos participantes a criarem e compartilharem suas próprias produções.
Duda acredita que a expressão poética funciona como ferramenta de preservação das histórias e de afirmação identitária. Através das palavras, é possível fazer ouvir vozes historicamente silenciadas e mostrar ao mundo a resistência e a memória dos povos.
A sexta-feira reserva reflexões sobre as múltiplas formas de manifestação corporal. Às 14h, o Espaço Comunitário sedia a roda de conversa Corporeidades ancestrais e visões estéticas do amanhã: Dança, Moda e Corporalidade. Profissionais de diferentes segmentos culturais — como Tatiana Campêlo, Linda Rosa Rodrigues, Rey Vilas Boas e Dete Lima — discutirão com a mediação da autora e educadora Karla Daniella Brito.
Vilas Boas, fundador de uma grife que trabalha com materiais reciclados, compartilha sua visão sobre a transformação criativa. Para ele, dar nova vida a tecidos descartados representa também a possibilidade de reinventar narrativas pessoais e coletivas.
O estilista defende que o vestuário pode funcionar como instrumento de questionamento dos padrões estéticos dominantes, ampliando a inúmera representação dos corpos negros. As roupas carregam memórias, territorialidades e identidades, podendo operar como veículos de poder e transformação.
A estrutura do evento se espalha por quatro pontos fixos no Pelourinho: o Espaço Infant Brilho, posicionado no Largo Tereza Batista; o Espaço designedado aos jovens no Largo Quincas Berro D'Água; a Casa Vale do Dendê, que abriga o Espaço Empoderamento; e o Museu Eugênio Teixeira Leal, que recebe o Espaço Identidades.
Parcerias com equipamentos culturais ampliam o alcance das ações. A Casa do Carnaval, Casa do Idoso, Casa do Olodum, Escola Olodum, Museu de Energia, Museu Solar Ferrão, a unidade móvel do Centro de Referência Nelson Mandela e o Projeto Axé completam a rede de espaços envolvidos.
O festival conta com recursos do governo estadual baiano, aportados por meio do Fundo de Cultura, vinculado às Secretarias de Cultura e da Fazenda.
Entre os momentos imperdíveis, destacam-se a conferência de abertura na quarta às 15h, o Sarau da Infância na quinta às 10h50 e a roda sobre corporalidades na sexta às 14h.
Fonte: A TARDE