A cada ano, entre 300 mil e 400 mil brasileiros sofrem um Infarto Agudo do Miocárdio, sendo que aproximadamente um a cada cinco a sete casos termina em morte. Os dados do Ministério da Saúde revelam que a doença cardiovascular é a principal causa de falecimentos no país, desafiando a percepção popular de que o problema atinge apenas pessoas idosas.
O cardiologista e docente da Afya Salvador, Marçal de Oliveira Huoya, alerta que, embora a probabilidade de infarto em jovens seja considerada baixa, ela não pode ser ignorada. Segundo ele, qualquer desconforto no peito merece investigação, e o teste ergométrico apresenta um valor preditivo negativo próximo de 99%, sendo eficaz para descartar riscos em pacientes jovens sem fatores de vulnerabilidade prévia.
Pesquisas recentes evidenciam a urgência de mudanças no estilo de vida da população mais jovem. Levantamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia, realizado em 2023, indica que 20% dos adultos jovens já convivem com pressão arterial elevada, representando um crescimento de 8% em relação à década anterior. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em dados de 2022, mostrou que 40% dos brasileiros entre 18 e 24 anos consumiam alimentos ultraprocessados com frequência, enquanto 80% não alcançavam os 150 minutos semanais de atividade física recomendados pela Organização Mundial da Saúde.
Publicação da JAMA, uma das referências internacionais na área médica, demonstrou em estudo de 2023 que jovens submetidos a elevados níveis de tensão psicológica e ansiedade possuem o dobro do risco de desenvolver patologias cardíacas. A combinação de fatores genéticos, alimentação inadequada, sedentarismo e estresse tem contribuído para o aumento dos casos.
A professora Lívia Sigliani exemplifica essa realidade aos 39 anos, quando sofreu um infarto que ela própria atribui ao acúmulo de circumstances desfavoráveis. "Meu pai biológico teve um infarto há muitos anos. Eu tinha colesterol elevado, era fumante e passei por um período extremamente estressante. Tudo se somou: predisposição genética, estilo de vida, cigarro, má alimentação e sedentarismo. Eu era uma bomba-relógio", lembrou.
No cenário nacional, as doenças cardiovasculares respondem por cerca de 17,9 milhões de mortes anuais em todo o planeta, conforme a Organização Mundial da Saúde. O estado da Bahia registra mais de 26.500 falecimentos por complicações do coração a cada ano, o que equivale a uma taxa de 187,5 óbito para cada 100 mil habitantes, segundo levantamento da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Informações do DATASUS revelam um dado alarmante: as hospitalizações por infarto em pessoas com menos de 40 anos aumentaram 150% no Brasil. Entre 2020 e 2024, o Sistema Único de Saúde contabilizou 26.845 internações nessa faixa etária, sendo 6.441 apenas na região Nordeste, mantendo uma curva ascendente que deve se prolongar pelos próximos anos.
Marçal de Oliveira Huoya enfatiza que a prevenção exige acompanhamento médico regular, com a realização de exames como eletrocardiograma, ecocardiograma e teste de esforço antes de iniciar qualquer programa de exercícios. Em situações específicas, a monitorização ambulatorial da pressão arterial pode ser necessária para diagnosticar a hipertensão.
Após sobreviver ao infarto, Lívia Sigliani hoje leva uma vida normal, com prática regular de atividades físicas e alimentação equilibrada. Contudo, carrega uma sequela: uma lesão no músculo cardíaco causada pela demora no diagnóstico. "Fiquei uma semana buscando respostas sobre o que eu tinha. Se tivesse sido atendida rapidamente, não teria essa marca no coração", completou a professora, alertando para a importância de um atendimento médico ágil e preciso.
Fonte: A TARDE