A Polícia Federal identificou que pessoas próximas a Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master, conseguiram acessar informações confidenciais de procedimentos investigatórios conduzidos pelo Ministério Público Federal antes mesmo da deflagração da Operação Compliance Zero. As provas foram reunidas em um relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal.
De acordo com os investigadores, um grupo denominado "A Turma" estava associado ao banqueiro e realizava atividades de espionagem e obtenção de dados protegidos. O núcleo dessa operação era chefiado por Luiz Phillipi Mourão, alcunhado "Sicário", que coordenava a retirada de informações diretamente dos sistemas internos do órgão ministerial.
As mensagens analisadas pelos federais demonstram que Mourão realizava buscas personalizadas a pedido de Vorcaro. Em um dos exemplos documentados, no dia 23 de julho de 2025, ele pesquisou nos sistemas do MPF usando os termos "BRB AND MASTER", objetivando localizar inquéritos relacionados à negociação entre o Banco Master e o Banco de Brasília. Ao ser informado sobre a existência de múltiplos registros, Vorcaro respondeu solicitando acesso completo: "Quero tudo. Atenção total".
Os investigadores descobriram que as consultas foram realizadas utilizando credenciais de um funcionário lotado no Ministério Público. Uma pesquisa adicional feita no mesmo período, desta vez com o CPF do banqueiro, localizou 15 procedimentos, dos quais 11 tramitavam sob segredo de Justiça. Peritos conseguiram recuperar informações que haviam sido ocultadas digitalmente nos documentos enviados ao empresário.
No dia seguinte às consultas, Mourão repassou a Vorcaro dados sobre uma Notícia de Fato instaurada na Procuradoria da República no Distrito Federal para apurar supostos delitos financeiros ligados à operação entre Master e BRB. Para a corporação policial, esse momento representou o pontapé inicial das apurações que resultariam na Operação Compliance Zero.
O levantamento dos federais revelou ainda que a captação dessas informações não se limitou a 2025. Os agentes encontraram indícios de acessos similares desde o primeiro semestre de 2024. Em junho daquele ano, após receber um documento oriundo da Polícia Federal em São Paulo, Mourão acionou sua rede de contatos e, posteriormente, entregou ao banqueiro dados sobre procedimentos sigilosos que traziam seu nome.
Ao saber da existência de seis processos protegidos, Vorcaro ordenou que fossem todos levantados. Mourão respondeu que já havia solicitado um levantamento abrangente e propôs estender as pesquisas para outras pessoas físicas e jurídicas conectadas ao empresário. Em uma das conversas interceptadas, ele informou que a equipe dispunha de "acesso total e ilimitado" aos sistemas.
Os diálogos ainda revelam tentativas do grupo de consultar procedimentos classificados com nível máximo de sigilo. Em março de 2024, Mourão comunicou dificuldades para acessar determinada investigação, mas no dia seguinte comemorou a conquista do acesso, enviando uma imagem que evidenciava o uso das credenciais de uma servidora do Ministério Público Federal.
A Polícia Federal esclareceu que a simples utilização dos logins dos servidores não implica necessariamente participação consciente deles no esquema. Embora as credenciais tenham sido empregadas repetidamente para consultar investigações protegidas, ainda está em curso a apuração para determinar se os titulares tinham ciência ou envolvimento voluntário com as invasões. O Ministério Público Federal reconheceu o acesso indevido aos seus sistemas e informou que uma apuração interna constatou que servidores caíram em phishing, método fraudulento para capturar senhas.
As informações obtidas fazem parte das provas que fundamentaram a segunda prisão de Vorcaro, determinada pelo ministro André Mendonça, que atendeu a um pedido do presidente do STF, Edson Fachin, para desbloquear parte do sigilo das investigações do caso Master.
Fonte: Últimas Notícias – Metro 1