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Mais que uma sala: o CineConcerto demonstra que precisa ocupar todos os espaços de Salvador

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Fonte: A TARDE
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O debate sobre o local ideal para a apresentação da Orquestra Sinfônica da Bahia sempre desperta opiniões divergentes. Enquanto alguns defendem a Sala Principal do Teatro Castro Alves pelo conforto dos assentos e pela acústica controlada, outros argumentam que a Concha Acústica oferece uma experiência única, mesmo com os desafios logísticos de cinco mil espectadores saindo simultaneamente pela ladeira.

Após acompanhar o CineConcerto na última sexta-feira, 25, concluí que a questão pode estar mal formulada. O espetáculo não necessita de um espaço menor para ser apreciado adequadamente. Pelo contrário, deveria expandir-se para novas arenas.

Lançado em 2013 com o objetivo de atrair públicos inéditas para a música orquestral, o projeto transformou a relação dos baianos com a OSBA. Como apontou Manno Góes, trata-se de uma produção singular que se entrelaça à evolução recente da instituição musical.

Uma cena exemplifica essa conexão: ao meu lado, uma criança acompanhava cada melodia e personagem com entusiasmo contagioso. Reconhecia composições anteriores ao seu nascimento, analisava os figurinos, formulava perguntas e demonstrava a mesma fascinação de quem descobre uma nova franquia cinematográfica. Aquela não era uma criança sendo instruída a permanecer imóvel diante de uma orquestra, mas sim uma criança percebendo que aquela música também lhe pertencia.

A noite não exigia que o público deixasse suas lembranças na entrada. Ao contrário, dependia delas. Quando Harry Potter surgia, alguém resgatava memórias da infância. Quando a Marcha Imperial preenchia a Concha, espectadores antecipavam Darth Vader antes mesmo de sua aparição. O Poderoso Chefão, Indiana Jones, Cinema Paradiso, Matrix, Gladiador, Game of Thrones, Os Vingadores, Thriller e inúmerias outras produções chegavam ao palco acompanhadas de cinemas, DVDs, tardes diante da televisão, pessoas queridas e versões mais jovens de nós mesmos.

Os músicos demonstraram consciência de que, naquela noite, o figurino constituía parte do espetáculo. Alguns dos momentos mais marcantes aconteciam antes mesmo da primeira nota, quando os olhos percorriam a orquestra tentando identificar cada personagem. Francisco Roa, no papel de spalla transformado em Hannibal Lecter, representou uma das caracterizações mais precisas. A referência a O Exorcista rivalizava com dezenas de personagens distribuídos pelo palco. Até mesmo Manno Góes aderiu à brincadeira aparecendo caracterizado como Darth Vader.

Carlos Prazeres, conduzindo inicialmente como Indiana Jones, parecia ter encontrado a fantasia perfeita para seu papel na OSBA: o explorador de territórios onde uma orquestra sinfônica supostamente não deveria atuar.

Seria simplista reduzir a noite a uma seleção sinfônica de grandes êxitos cinematográficos. O repertório sozinho sustentaria grande parte do espetáculo, porém a direção compreendeu que trilha sonora não se resume a música posicionada ao lado das imagens.

Por essa razão, Star Wars ganhou movimento com a participação do Conselho Jedi Bahia, e Thriller recebeu coreografia. Em outra dimensão, os dubladores Raphael Rossatto e Juliana Franco aproximaram as vozes conhecidas dos personagens dos artistas por trás delas. O cinema nacional também esteve presente, com um discurso emocionado prestando homenagem à aguardada Bahia Filmes. As vinhetas de estúdios, aquelas melodias normalmente ouvidas enquanto ajustamos a pipoca na poltrona, também assumiram protagonismo.

Manno Góes declarou antes da apresentação que existem filmes que simplesmente não seriam os mesmos sem suas trilhas. Citou Cinema Paradiso, igualmente escolhido por Carlos Prazeres como uma das mais belas declarações de amor ao cinema.

Experimente visualizar o tubarão de Spielberg sem aquelas duas notas. Ou Darth Vader entrando em silêncio. Talvez Rocky subindo as escadas sem Gonna Fly Now. O cinema persistiria, porém algo fundamental estaria ausente.

Embora praticamente todo esse imaginário provenha de Hollywood, houve um instante em que o CineConcerto recordou ao público onde aquela orquestra se encontrava.

No tema de Os Vingadores, a Bahia entrou em cena: Gal Costa, Riachão e Jorge Amado surgiram tratados como aquilo que sempre representaram para a cultura brasileira: heróis locais.

A criança sentada ao meu lado estranhou. Por alguns segundos, pareceu acreditar que algo havia salido errado, já que reconhecia aquela música e sabia quem deveria aparecer quando os metais indicassem os heróis da Marvel. Mas não havia erro algum. Se Hollywood construiu seus heróis com capas, armaduras e poderes sobrenaturais, a Bahia construiu os seus com voz, samba, literatura, cinema e criatividade.

Esse momento pode parecer modesto diante de um espetáculo tão grandioso, porém diz muito sobre a própria OSBA. Esta é uma orquestra capaz de executar John Williams sem tentar simular que atua em Los Angeles. Pode interpretar Morricone e permanecer profundamente baiana. Pode apresentar Absolute Cinema sem negligenciar Glauber Rocha.

Retornando à questão inicial: compreendo quem prefira a Sala Principal. Compreendo quem deseje melhor poltrona, menor circulação e silêncio absoluto para ouvir a orquestra. E há uma discussão sobre acessibilidade ao espaço que merece atenção.

Contudo, o comportamento do público impressionou positivamente: as pessoas cantaram, riram, indicavam personagens, comentavam filmes, antecipavam músicas, emocionavam-se. Grande parte do concerto revelou uma plateia completamente embevecida pela orquestra.

Isso não configurou falta de respeito, mas participação genuína. Há uma diferença substancial entre um público que prejudica um espetáculo e um público que reage a ele.

O CineConcerto foi conceived specifically para derrubar uma das barreiras mais persistentes da música sinfônica: a ideia de que primeiro precisamos dominar um código de comportamento para somente depois recebermos autorização para apreciá-la.

Talvez uma criança commentando entusiasticamente que reconheceu Harry Potter represente exatamente o oposto de um problema, sendo na verdade a formação de plateia acontecendo diante de nossos olhos.

Portanto, se me questionarem se o CineConcerto deveria abandonar a Concha, minha resposta é afirmativa. Porém não para ficar confinado à Sala Principal. Que também chegue lá. E depois siga em frente novamente.

Que atravesse Salvador. Que chegue a bairros onde uma orquestra sinfônica ainda parece pertencer a outro universo. Que percorra a Bahia. Que ofereça segunda sessão, terceira sessão, inúmera sessões. Que encontre teatros, praças e outros palcos possíveis.

O Teatro Castro Alves é a casa da OSBA. Toda orquestra merece um lar, mas possuir uma casa não implica nunca viajar.

Talvez essa represente uma das grandes virtudes do trabalho desenvolvido nos últimos anos: fazer o público confiar na OSBA independentemente do repertório. Prazeres revelou que atualmente as pessoas chegam aos concertos declarando "Eu amo a OSBA, eu amo essa orquestra". Não é pouco, especialmente para uma instituição que trabalha com uma linguagem artística apresentada durante tanto tempo como se necessitasse ser traduzida antes de ser sentida.

O CineConcerto permaneceu três anos distante do palco. O cinema nos ensinou a desconfiar de sequências produzidas apenas porque o primeiro filme obteve sucesso. Algumas histórias realmente deveriam terminar nos créditos.

Esta não.

O CineConcerto pode ter continuação. Parte três. Spin-off. Prequel. Universo expandido. Pode prosseguir enquanto existir uma trilha capaz de fazer alguém cerrar os olhos e enxergar um filme inteiro.

Porque, no fundo, foi isso que aconteceu na Concha. Não havia uma tela imensa projetando nossas lembranças. Não precisava.

John Williams tratava disso. Morricone também. Nino Rota, Hans Zimmer, Alan Silvestri e inúmerias outros completaram a obra. E uma orquestra executando essas músicas ao vivo transforma memória em presença viva.

Carlos Prazeres costuma denominar a plateia da OSBA de "público-crush". Um elogio bastante carinhoso.

Porém, após cinco mil pessoas preenchendo a Concha para assistir a músicos caracterizados transformando uma orquestra em cinema, acho que já podemos inverter essa lógica.

O público pode até ser o crush da OSBA.

Mas a OSBA já se tornou o nosso.

E, por favor, sem três anos de espera até o próximo encontro.

Fonte: A TARDE

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