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Três necrópoles centenárias revelam o legado da diversidade étnica e religiosa na capital baiana

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Fonte: Últimas Notícias - Metro 1
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Antes do advento do século XIX, os habitantes de Salvador costumavam sepultar seus falecidos no interior de templos catholicisos ou em terrenos adjacentes, seguindo a tradição portuguesa. Contudo, para aqueles que não compartilhavam da fé católica nem tinham origem no eixo Portugal-Brasil, surgia um desafio delicado: onde encontrar descanso final em uma nação oficialmente vinculada ao catolicismo? A solução permanece viva em três pontos da urbe: Ladeira da Barra, Federação e Quinta dos Lázaros.

Nesses locais surgiram, em períodos distintos e por iniciativas particulares diversas, o Cemitério dos Ingleses, o Cemitério dos Estrangeiros e o Cemitério Israelita da Bahia, formando um mapa silencioso da presença immigrantória na capital baiana. A mudança começou em 1808, quando a corte portuguesa aportou no Brasil escoltada por embarcações da marinha britânica, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. A parceria com a Inglaterra, fortalecida por acordos comerciais, proporcionou um efeito colateral pouco lembrado: protestantes conquistaram o direito ao culto privado em território brasileiro. Restava, contudo, um local apropriado para sepultamentos.

Em 8 de fevereiro de 1811, o Conde dos Arcos, então administrador da Bahia, permitiu a criação do Cemitério dos Ingleses para cidadãos britânicos, em terreno vinculado à Igreja de Santo Antônio da Barra. O primeiro sepultamento ocorreu em 1813. Atualmente, o espaço é gerido pela Associação da Igreja de São Jorge e Cemitério Britânico, entidade beneficiente composta por descendentes de britânicos e voluntários locais. Pelo seu valor histórico, tornou-se atração turística e local de visitação. Entre as lápides, destacam-se nomes como o médico escocês John Ligertwood Paterson, fundador da Escola Tropicalista Baiana, e o comerciante Edward Pellew Wilson, patriarca da futura companhia Wilson & Sons. Também repousam ali, desde 1832, dois marinheiros do Beagle, embarcação de Charles Darwin, embora seja falsa a alegação de que o próprio cientista tivesse parentes sepultados no local.

A necrópole britânica jamais foi restrita a cidadãos da Inglaterra. Enquanto vigia a proibição de inumar não católicos em solo abençoado, adeptos do luteranismo, germânicos e até mesmo judeus locais encontraram ali seu último refúgio. Essa realidade persistiu até 1851, quando colonos alemães e suíços fundaram seu próprio espaço funerário. Para a comunidade judaica, a mudança só se completou em 1937. No meados do século XIX, as colônias alemã e suíça em Salvador sobreviviam principalmente do comércio, do fumo e do açúcar. A integração com os baianos católicos era, segundo especialistas, ainda mais conflituosa que a experimentada pelos britânicos.

A solução surgiu em 1851, com a fundação de uma necrópole particular na Federação, defronte ao tradicional Campo Santo, denominada Cemitério dos Estrangeiros. A comunidade judaica trilhou caminho diverso. Sem território próprio, os judeus baianos utilizavam há décadas uma seção reservada no pavimento inferior do Cemitério dos Ingleses. A realidade se alterou em 1937, quando a prefeitura decidiu viabilizar um acesso ao Iate Clube da Bahia pela lateral do Forte São Diogo e a desapropriação atingiu a área onde jaziam parte dos judeus da cidade.

Essa mudança acelerou negociações que a comunidade judaica já pleiteava há anos. Uma comissão liderada por figuras como Isaac Uderman e Salomão Adler obteve, junto ao interventor de Getúlio Vargas na Bahia, Juracy Magalhães, a doação de um terreno na Quinta dos Lázaros. Ali surgiu o Cemitério Israelita da Bahia, com o primeiro sepultamento, o de Jacob Palatnick, em setembro daquele ano. O terreno selecionado apresenta topografia inclinada. Todo o conjunto de cemitérios da Quinta dos Lázaros foi edificado a partir de 1850, após uma epidemia de cólera, seguindo preceitos sanitaristas que preconizavam necrópoles em áreas elevadas, distantes de zonas residenciais e do lençol freático.

Rubin Muller responsabilizou-se pela transferência dos restos mortais e administrou o cemitério por quase quatro décadas, falecendo em 1975. A praça em frente ao portão recebe seu nome, justa homenagem a quem dedicou a existência ao cuidado do descanso eterno de outros, mantendo sepultamentos conforme a tradição judaica. Nos dias atuais, os três espaços permanecem acessíveis a visitantes. O Cemitério dos Ingleses, na encosta da Barra, protegido por tombamento desde 1993, funciona como museu a céu aberto e preserva acervos históricos relevantes — para ingressar, basta tocar a campainha do portão. Por estar com sua capacidade preenchida, é o único dos três que não realiza mais inumações. O Cemitério dos Estrangeiros e o Israelita, que abriga também memorial do Holocausto, continuam em plena atividade com seus rituais e sepultamentos regulares.

Fonte: Últimas Notícias – Metro 1

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