Um novo capítulo da literatura brasileira sobre o período militar chegou aos leitores durante a maior feira literária do país. Maurício Melo Júnior, escritor natural de Pernambuco, lançou "O Tardio" na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, evento que ocorre entre os dias 4 e 13 de setembro.
A obra se distingue por abordar a geração que buscou alternativas fora do sistema durante os anos de chumbo, diferentemente de outros títulos que focam na guerrilha. "Falo da turma que foi para o desbunde, que foi procurar outros caminhos de vida para quebrar com a lógica vigente, porém sem pegar em armas", explicou o autor ao portal A TARDE.
O romance entrelaça duas épocas distintas: o fim da década de 1970 e os anos 2000. A narrativa acompanha o advogado Sérgio, também pernambucano, cuja existência pacata é transtornada quando um familiar falece e traz à tona o mistério em torno de Roberto, seu irmão mais velho que morreu jovem e cuja história era cercada de silêncio.
Guiado por cartas enviadas de diferentes cantos do Brasil, Sérgio abandona sua rotina e percorre o país refazendo os passos de Roberto, que abandonou o conforto da casa dos pais para aderir ao movimento hippie ao lado de Caliandra. A jornada passa por puntos icônicos da contracultura como Arembepe e Armação dos Búzios, verdadeiros refúgios para aqueles que queriam fugir da opressão política e familiar daquela época.
Sobre a importância de lançar a obra justamente na Bienal, Maurício destacou a presença massiva de jovens no evento. "Esses rapazes e moças estão muito atentos aos conflitos políticos que se intensificaram recentemente. Convivo bastante com eles e percebo uma inquietação genuína", afirmou.
O escritor, que também atua na literatura infantojuvenil, acredita que o público jovem está redescoberto esse capítulo sombrio da história nacional. "No começo, essa redescoberta aconteceu por meio de autobiografías como as de Marcelo Rubens Paiva e Fernando Gabeira. Depois, ganhou força uma análise ficcional do período, que começou a florescer a partir dos anos 2000", detalhou.
Maurício já acumula 35 publicações, sendo "O Tardio" seu quarto romance. A edição atual da Bienal reúne 800 escritores, entre nacionais e estrangeiros, e 269 editoras expositoras. Entre os destaques nacionais estão nomes como Conceição Evaristo, Itamar Vieira Jr. e Paula Pinha. Do cenário internacional, participam autoras como Ana Huang e Elena Armas.
O evento, promovido pela Câmara Brasileira do Livro, segue aberto ao público até o dia 13 de setembro na capital paulista.
Fonte: A TARDE