Entre concretos e tatames, Adailton Santana de Souza construiu uma história de superação que atravessa três décadas. Aos 38 anos, o atleta nascido em Jauá, distrito costeiro de Camaçari, coleciona títulos que vão além das medalhas: representam resistência, dedicação e amor pelo karatê.
A trajetória nos esportes começou de forma inesperada. Enquanto jogava futebol pelas ruas do bairro onde cresceu, o jovem recebeu um convite que mudaria sua vida. Dona Jô, comerciante do ramo de materiais de construção da região, mantinha uma parceria social com o professor Alberto, responsável pela academia Askalin. Sem recursos para arcar com mensalidades e equipamentos, Adailton contou com o apoio da lojista para dar os primeiros passos no karatê.
O talento se manifestou rapidamente. Após conquistar a faixa vermelha, passou a participar de competições municipais e estaduais, destacando-se entre os competidores da região. No entanto, a caminhada foi interrompida de forma abrupta. Quando ainda vestia a faixa marrom, o luto pela perda do avô o afastou dos treinos por oito anos. Nesse período, dedicou-se aos estudos, à família e ao trabalho na construção civil, onde alcançou a posição de mestre de obras.
O retorno aos tatames aconteceu há quatro anos, impulsionado pela formação de um grupo de atletas veteranos que haviam deixado a competição. "Esse movimento acabou despertando novamente em mim algo que nunca tinha deixado de existir: a paixão pelo Karatê", lembrou Adailton em entrevista.
Um dos momentos mais difíciles veio antes mesmo da retomada das vitórias. Uma forte enchente atingiu a academia e destruiu o piso do local. Com experiência na construção civil, Adailton dedicou 20 dias inteiros aos trabalhos de reconstrução, abandonando temporariamente seus projetos externos. A dedicação chamou atenção dos companheiros, que se uniram para viabilizar o exame de faixa preta que o atleta não conseguia custear sozinho.
A rotina que se seguiu exigiu Sacrifícios constantes. Durante a semana, são cerca de uma hora de treino diariamente, estendendo-se para duas horas e meia aos sábados, totalizando aproximadamente sete horas e meia semanais. "É uma rotina que exige disciplina, organização e muitos sacrifícios, principalmente conciliando o trabalho com os treinos", completou.
Os primeiros resultados após o retorno surgiram rapidamente. Na Taça do Poeta, em Castro Alves, Adailton conquistou o título que marcou sua volta definitiva. Depois vieram o tricampeonato baiano e a conquista doCampeonato Brasileiro Master A -75 kg, em Brasília. No ano seguinte, garantiu o vice-campeonato sul-americano Master, em Fortaleza, assegurando a tão desejada vaga na Seleção Brasileira.
"O Campeonato Sul-Americano teve um significado muito especial para mim, porque me deu a honra de defender o meu país e, pela primeira vez, vestir a camisa da Seleção Brasileira de Karatê", celebrou o atleta.
As dificuldades financeiras, porém, persistiram. Participar de competições pode custar até quatro mil reais por atleta, incluindo inscrições, transporte, alimentação e hospedagem. Antes de conquistar apoio empresarial, Adailtondependia de rifas, bingos e contribuições de amigos e comerciantes locais. "Cada contribuição, por menor que pareça, faz uma diferença enorme", afirmou.
O marco decisivo aconteceu durante o projeto Praia Limpa, realizado em Jauá. Ao expor suas necessidades, o atleta chamou a atenção da empresa TRONOX, que passou a patrocinar sua carreira. Diferente de muitos esportistas, Adailton pediu que o apoio contemplasse também outros competidores da academia Askalin. A empresa passou a custear viagens e inscrições em competitions como o Open Nacional, em Aracaju, e a Copa Dória, em Belo Campo.
"Hoje, ter o apoio da TRONOX representa muito mais do que um patrocínio. É a oportunidade de continuar sonhando, treinando e competindo com um pouco mais de tranquilidade", declarou.
A empresa e a academia também discutem a criação de um projeto social permanente destinado a jovens em situação devulnerabilidade. Para Adailton, o incentivo vai além da ajuda individual. "Quando uma empresa patrocina um atleta, ela não está apenas ajudando a pagar uma inscrição, uma viagem ou uma hospedagem. Ela está dando condições para que esse atleta tenha mais tempo para treinar, aperfeiçoar sua técnica e buscar seus objetivos", explicou.
Com novas competições agendadas até o encerramento do ano, Adailton pretende seguir levando o nome de Jauá, Camaçari e do Brasil aos tatames. "Quero continuar levando a minha arte, representando meu clube, minha comunidade, minha cidade e o meu país", concluiu.
Fonte: Aratu On – Últimas Notícias