Glady Maria da Silva jamais conheceu a liberdade típica da infância. Aos 60 anos, a psicóloga e autora de Salvador carrega consigo uma história marcada por limitações físicas, inúmeraveis internações hospitalares e pelo desafio diário de viver com osteogênese imperfeita, condição genética popularmente chamada de síndrome dos ossos de vidro.
Desde o primeiro dia de vida, os médicos pintaram um cenário sombrio. A mãe da profissional, Maria Anunciação da Silva, hoje com 92 anos, recebeu a previsão de que a filha não sobreviveria além de seis meses. A técnica de enfermagem aposentada recusou-se a aceitar o prognóstico. “Doutor, Jesus só dá a quem pode fazer”, respondeu ela ao médico, segundo relato emocionado feito à equipe de reportagen.
A rotina da pequena Glady foi definida por gessos, fraturas e internações. Enquanto outras crianças descobriam o mundo correndo e brincando, ela aprendia a conviver com a dor e com as restrições impostas pelo próprio corpo. “Eu sempre digo que eu não tive infância. A minha era ficar me arrastando pelo chão, porque eu não engatinhei”, contou a autora, lembrando que a situação financeira da família também impediu que ela tivesse brinquedos.
O preconceito somou-se às dificuldades físicas. As pessoas na rua não apenas olhavam, mas apontavam e zombavam. “As pessoas ficavam olhando porque eu, corporalmente, sou diferente. Imagina a minha geração”, desabafou Glady, destacando que esse tipo de atitude ainda persiste nos dias atuais.
A transformação aconteceu quando ela ingressou na universidade aos 18 anos. Pela primeira vez, a cadeira de rodas deixou de ser vista como uma prisão e passou a representar autonomia. “Quando eu aceitei a minha cadeira, foi para mim o xeque-mate da minha vida. A liberdade”, declarou.
Formada em psicologia há 13 anos, com especializações em Terapia Cognitivo-Comportamental e Gestalt-terapia, Glady provou que a deficiência não seria um obstáculo para seus sonhos. Ela publicou dois livros: Coração de Vidro, lançado em 2023, e Coração Valente, apresentado na Bienal do Livro deste ano. O primeiro aborda vulnerabilidade e marcas emocionais; o segundo fala sobre coragem e persistência diante das adversidades.
Atualmente, a psicóloga atende diariamente de forma virtual. Interessados podem agendar consultas pelo telefone (71) 98606-3819 ou pelo perfil @gladymariadasilva nas redes sociais. Para ela, a maior conquista não foi apenas sobreviver ou se formar, mas aprender a ocupar o próprio espaço no mundo.
Neste Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência Física, a história de Glady serve como convite para que a sociedade enxergue além das limitações visíveis e lute contra as barreiras que ainda insiste em construir.
Fonte: A TARDE