Início Política A sedução perigosa: por que o fascismo continua encantando mesmo quem deveria combatê-lo
Política

A sedução perigosa: por que o fascismo continua encantando mesmo quem deveria combatê-lo

Share
Fonte: Últimas Notícias - Metro 1
Share

Há um enigma perturbador que persiste ao longo da história e que desafia tanto teóricos quanto ativistas: a capacidade do fascismo de hipnotizar aqueles que, paradoxalmente, serão suas maiores vítimas. Em agosto de 1935, o líder revolucionário Georgi Dimitrov apresentou ao mundo seu célebre relatório sobre a investida fascista e as responsabilidades da classe operária. O tempo mudou, a realidade se transformou, mas alguns características permanecem inconfundíveis.

O fascismo não se contenta em dominar; ele seduz. Apresenta-se como uma solução simplista para problemas complexos e genuínos, tornando esses problemas ainda mais graves. Sua força está em apelar para os sentimentos mais profundos das massas, explorando tanto preconceitos arraigados quanto os melhores anseios populares, como a sede de justiça e as tradições revolucionárias. Promete liberdade ao mesmo tempo em que remove direitos.

Para Dimitrov, a natureza de classe do fascismo é clara: trata-se da substituição da democracia burguesa por uma dictatorship terrorists aberta, essencialmente o poder do capital financeiro em sua forma mais brutal. Porém, a questão central permanece: como um inimigo em potencial pode fascinar aqueles que sofrerá suas consequências?

A resposta está na demagogia sofisticada. O fascismo oferece palavras de ordem sedutoras, prometendo acabar com a burocracia enquanto cria uma nova; prometendo liberdade aos camponeses enquanto os entrega à escravidão; prometendo um futuro brilhante à juventude enquanto oferece trabalho forçado e exercícios militares interminantes.

O caso do filósofo Gottlob Frege, considerado um dos fundadores da lógica moderna, ilustra essa cisão misteriosa. Michael Dummett, seu maior estudioso, descreveu o choque ao descobrir, nos diários suprimidos de Frege, opiniões de extrema-direita: hostilidade ao sistema parlamentar, a democratas, liberais, franceses e, sobretudo, aos judeus. Esse documento demonstra que a queda ideológica pode alcançar qualquer pessoa, independentemente de sua inteligência ou formação.

Ernst Cassirer, em sua obra O Mito do Estado, escreveu em 1945 sobre a técnica dos mitos políticos modernos. O filósofo identificou como o fascismo consegue fabricar mitos de forma artificial, usando métodos comparáveis à produção de armas. Cassirer alertou que o inimigo já não estava em terras distantes, mas ao lado, no escritório vizinho, entre colegas de trabalho.

A linguagem torna-se arma política. Na Alemanha nazista, uma sutil diferença entre Siegfriede e Siegerfriede transformava o significado da paz. O discurso emptied de conteúdo permite affirmar qualquer posição e seu oposto com igual força, tornando impossível o diálogo genuíno.

Esse fenômeno não pertence apenas ao passado. As redes sociais contemporâneas reproduzem essa dinâmica: a consolidação de desacordos permanentes, a anatematização de grupos inteiros, a transformação de divergências políticas em questões penais. A taxonomia deixa de ser ferramenta de análise para tornar-se instrumento de guerra.

O mais alarmante é que até mesmo pessoas educadas e racionais podem ser vulneráveis. Cassirer comparou essa transformação à metamorfose dos companheiros de Ulisses em animais: homens e mulheres decentes, de boa formação, repentinamente abandonam seu privilégio mais alto — a agency pessoal e livre.

A informação acessível não basta para quebrar esse feitiço. Absurdos como questionar a forma esférica da Terra ou rejeitar vacinas demonstram que o obscurantismo pode galvanizar setores conservadores da sociedade e até conquistar eleições.

Para resistir a essa sedução, é necessário compreender o adversário em sua complexidade. A filosofia deve manter seus ideais éticos e teóricos fundamentais, aceitando que esse inimigo enigmático possui forças que não podem ser reduzidas aos seus efeitos visíveis. Precisamos estudar cuidadosamente a origem, a estrutura e os métodos dos mitos políticos para defeatê-los.

O fascismo continua sendo um enigma a ser decifrado. Seu fascínio persiste porque se embed into our daily lives, entrelaçado ao legado conservador e autoritário de nossa história. Cabe a nós, dia após dia, desatar seus nós conceituais e dissolver seu amálgama de conceitos vazios e emoções destructivas.

Fonte: Últimas Notícias – Metro 1

Share
Artigos relacionados
Política

Ministro do Supremo determina análise de órgãos sobre segundo turno no Rio de Janeiro

O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, determinou nesta segunda-feira (19)...

Política

Confrontos verbais agitam segundo trecho do debate presidencial na Band

O segundo segmento do confronto eleitoral transmitido pela emissora Band neste domingo...

Política

Debate da Band expõe equilíbrio entre farpas políticas e ausência de projetos concretos

O confronto direto promovido pela emissora Band durante o período eleitoral evidenciou...

Política

Flávio Bolsonaro ironiza adversário com inscrição na palma durante confronto televisivo

Num momento marcante do primeiro embate direto do segundo turno eleitoral, o...