O cinema brasileiro pode estar vivendo um momento de expansão em âmbito nacional, mas a realidade baiana revela uma disparidade preocupante no acesso à sétima arte. Em entrevista exclusiva ao portal A TARDE, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, falou sobre os desafios de interiorização e sustentabilidade das salas de exibição no estado.
Levantamento realizado pela inúmerareportagem em 2024 demonstrou que a Bahia, composta por 417 municípios, possuía naquele ano 40 complexos cinematográficos e 141 salas em pleno funcionamento, concentradas em apenas 23 cidades — o que representa aproximadamente 5,5% dos municípios. O cenário já era limitado e, desde então, perdeu mais vagas. A rede CineSercla encerrou as atividades de sua unidade no Shopping Cajazeiras, na capital baiana, que contava com 4 salas. Já o Grupo Cine, principal rede cinematográfica do interior baiano, anunciou o fechamento de suas operações no Vale Shopping, em Amargosa, eliminando mais três salas.
O Ministério da Cultura informou que o número de complexos comerciais na Bahia permaneceu estável entre 2023 e 2026, totalizando 39. Porém, a quantidade de salas diminuiu de 141 para 136 até agosto de 2026, com realocações internas: alguns municípios ampliaram sua oferta enquanto outros registraram fechamento de unidades.
A ministra Margareth Menezes apresentou dados animadores no contexto brasileiro. Segundo ela, quando assumiu a Pasta em janeiro de 2023, o país contava com 2.500 salas de cinema em operação. Atualmente, esse número saltou para 3.500 — mil salas a mais. "O dado é que vem crescendo. Nós temos uma política de aberturas em cidades que não possuem salas, porque a grande realidade é que a maioria estavam no sudeste. Muitas cidades do Brasil não tinham salas de cinema", pontuou.
Na Bahia, quatro municípios baianos aumentaram sua quantidade de salas: Vitória da Conquista passou de 8 para 9; Teixeira de Freitas, de 5 para 6; Santo Antônio de Jesus, de 2 para 3; e Paulo Afonso, de 1 para 2. Brumado ganhou sua primeira sala comercial. Atualmente, as cidades baianas com exibição cinematográfica são: Salvador (68), Feira de Santana (9), Vitória da Conquista (9), Lauro de Freitas (7), Teixeira de Freitas (6), Camaçari (5), Juazeiro (4), Itabuna (4), Jequié (4), Santo Antônio de Jesus (3), Serrinha (2), Irecê (2), Alagoinhas (2), Ilhéus (2), Eunápolis (2), Paulo Afonso (2), Luís Eduardo Magalhães (2), Barreiras (2), Guanambi (2), Ibicaraí (1), Itamaraju (1), Porto Seguro (1) e Brumado (1).
A gestora salientou que a questão não pode ser atribuída solely à falta de demanda. "Não estamos diante de uma realidade uniforme. Existe uma dimensão econômica. Manter uma sala de cinema em funcionamento envolve custos importantes de operação, programação, manutenção e infraestrutura, e esses desafios são maiores em mercados menores", completou.
Margareth Menezes também destacou que o público se forma ao longo do tempo e que uma programação diversificada, preços acessíveis, equipamentos de qualidade e, principalmente, a possibilidade de as pessoas se reconhecerem no conteúdo exibido contribuem para criar e manter essa audiência. "A política para o audiovisual não pode se limitar à produção de filmes. Precisamos olhar para toda a cadeia: formação, produção, distribuição, exibição, preservação e formação de público. E precisamos fazer isso de maneira nacionalizada", explicou.
Para o jornalista baiano e crítico de cinema Adolfo Gomes,filiado à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, o número de salas é insuficiente. Além disso, ele observou que a programação permanece bastante concentrada em blockbusters. "Não há diversidade. Cabe ao poder público, através dos Centros Culturais e da criação de novos equipamentos, melhorar esse cenário", disse.
Adolfo Gomes defendeu que é necessário estímulo, projetos de formação de público, mobilização e criação de um circuito de difusão para transformar essa realidade. "É questão de dar continuidade e ter mais apoio e investimento para obter resultados mais rápidos e visíveis", completou.
Dentro dessa estratégia de nacionalização, Margareth assegurou que a Bahia está progredindo e mencionou investimentos significativos. "Os Arranjos Regionais do Audiovisual destinam R$ 24 milhões para fortalecer o setor no estado, com recursos federais e contrapartidas locais", informou. O ministério detallhou que esses investimentos abrangem diferentes etapas da cadeia, incluindo formação, produção, difusão e preservação, além de linguagens como animação, conteúdo infantil e jogos eletrônicos.
A produção e o financiamento de novas obras contam com outros instrumentos da política audiovisual, especialmente o Fundo Setorial do Audiovisual. Entre 2023 e 2025, conforme a Pasta, foram aportados mais de R$ 5,7 bilhões no setor audiovisual brasileiro, considerando recursos do FSA e das leis de incentivo.
Em relação ao Brasil, o Ministério da Cultura pretende focar principalmente nas cidades de médio porte. "Como cinemas em shopping é mais caro, nós estamos buscando fazer cinemas públicos para a gente criar mais a demanda, porque às vezes a pessoa nunca foi ao cinema porque na sua cidade não tem. Isso gera uma leitura que não parece boa", observou a ministra.
Com 550 obras disponíveis, o Tela Brasil, plataforma de streaming gratuita lançada em maio de 2026, já registrou quase 6 milhões de visualizações, sendo mais de 735 mil apenas no mês de julho. Dentro da grande missão de ampliar o alcance do cinema nacional, o Tela Brasil funciona como uma plataforma pública de difusão, circulação e acesso ao audiovisual brasileiro.
A prioridade do Ministério neste momento é consolidar e ampliar o projeto, expandindo seu público, catálogo, acessibilidade e alcance nas diferentes telas. "Nós temos uma missão muito grande de acolher cada vez mais a produção brasileira. O nosso foco maior é de promover a melhoria da política de industrialização do audiovisual", disse Margareth.
A ministra revelou que, nos anos de 2026 e 2027, serão lançadas várias obras de coprodução internacional, totalizando mais de 100 filmes a partir das chamadas públicas. Há também ações de formação de plateia. "A retomada das aulas de arte e cultura nas escolas também tem essa função, para que a juventude também possa despertar para a produção nacional, tanto do audiovisual, mas também da dança, do teatro e da música", completou.
"O ambiente não é tão fácil, porque nós temos as plataformas de streaming, mas sabemos que o povo brasileiro gosta da sua cultura e a gente precisa criar políticas que façam com que o acesso seja cada vez maior", afirmou.
Em maio deste ano, o longa infantil "Zuzubalândia – O Filme", lançado originalmente há dois anos, foi utilizado pela rede Cinemark para cumprir mais rapidamente a Cota de Tela, mecanismo que obriga exibidoras a reservar parte da programação a produções nacionais. Só no estado de São Paulo, a rede programou 114 sessões do título em um único dia, quase metade delas às 11h.
Margareth assegurou que a Ancine monitora o cumprimento da Cota por meio dos dados de bilheteria e da programação das salas. "Nós estamos atentos sim, porque é preciso que também o agente cultural cumpra a sua parte dentro daquilo que é acordado. Nossa função é promover o cinema brasileiro e tomar conta para que as ações que estão dentro da regulação sejam cumpridas", garantiu.
Antes da retomada da Cota de Tela, em 2023, os filmes brasileiros representavam 7,5% das sessões e apenas 3,3% do público. Em 2024 e 2025, a participação nas sessões subiu para 15,7%, mas a participação no público ficou em torno de 10%. Em 2026, até o momento, essa participação no público está em 6,5%.
Após o caso envolvendo a Cinemark, foi feito um aperfeiçoamento da regulamentação. A nova regra cria incentivos para que as salas exibam filmes brasileiros em horários de maior público, especialmente a partir das 17 horas, e também para que esses filmes permaneçam mais tempo em cartaz.
Fonte: A TARDE