O Ministério da Agricultura e Pecuária colocou em prática um ambicioso plano para transformar a cadeia produtiva do cacau no Brasil. Batizado de Projeto Inova Cacau 2030, o programa foi oficializado por meio da Portaria nº 909, publicada em 22 de maio de 2026, e promete modernizar o setor ao integrar políticas públicas, pesquisa científica, assistência técnica e práticas sustentáveis.
A estratégia estabelece regras de governança e monitoramento para coordenar ações em todo o território nacional, com foco em elevar a produtividade das regiões produtoras e preparar os agricultores para atender às crescentes exigências do mercado externo.
Na Bahia, uma propriedade de 400 hectares mantida pelo produtor Rômulo Almeida Rocha, de 68 anos, exemplifica o modelo que o governo pretende ampliar. No sistema conhecido como Cabruca, os cacaueiros crescem sob a copa de árvores da Mata Atlântica, dispensando o desmatamento. "A solução é não desmatar", resume o agricultor, que investe no rejuvenescimento dos pés de cacau como estratégia para superar períodos de estiagem.
Essa abordagem demonstra que é possível obter boas safras sem abrir novas áreas, desde que haja manejo adequado, renovação constante dos plantios e acompanhamento de especialistas. A valorização dos sistemas agroflorestais virou prioridade na nova fase da cacauicultura nacional.
No Pará, a Chácara Mineshita, em Tomé-Açu, combina o cultivo de cacau com açaí e pimenta-do-reino. O engenheiro agrônomo Armando Mineshita, conhecido como Tamó, colheu cerca de 10 toneladas de amêndoas no último ano. Ele atribui o resultado à assistência técnica oferecida pela CEPLAC na região. "O apoio técnico foi fundamental para os resultados que alcançamos", destaca.
O plano governo prevê agora articulação com governos estaduais e municipais, instituições de pesquisa, cooperativas e empresas da cadeia produtiva. A ideia é adaptar as diretrizes nacionais às realidades de cada território, considerando diferenças climáticas, sociais e ambientais.
Outra frente importante envolve a adequação à legislação recente. A Lei nº 15.337/2026 ampliou objetivos da Política Nacional de Incentivo à Produção de Cacau de Qualidade, fortalecendo eixos como pesquisa, defesa sanitária, sustentabilidade e abertura de novos mercados.
O mercado internacional impõe cada vez mais requisitos sobre a procedência e o impacto socioambiental dos produtos. Por isso, o Inova Cacau 2030 prioriza a rastreabilidade da cadeia, auxilizando produtores a documentar a origem do cacau e a conformidade com padrões sustentáveis. Ferramentas como o Cadastro Ambiental Rural e tecnologias de georreferenciamento devem apoiar esse processo.
A pesquisa científica ocupa lugar central no programa. A CEPLAC trabalha no melhoramento genético do cacaueiro, no desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes a doenças e na adaptação de técnicas de cultivo às diferentes condições brasileiras. O combate a ameaças fitossanitárias, como a monilíase, exige vigilância constante e resposta rápida.
Estudos também buscam mensurar os benefícios ambientais da cacauicultura. Sistemas como a Cabruca conservam biodiversidade, armazenam carbono e ajudam na recuperação de áreas degradadas. Comprovação científica desses atributos pode abrir portas para estratégias de valorização e diferenciação do cacau brasileiro no cenário global.
Fonte: A TARDE