O Campo da Pólvora, tradicional largo situado no bairro de Nazaré, em Salvador, guarda sob sua superfície muito mais do que o movimento cotidiano da capital baiana. O espaço, hoje frequentado por pedestres e comerciantes, foi durante séculos marcado por episódios de barbárie e exclusão social que poucos conhecem.
A praça serviu como local para execuções públicas durante diversos episódios de rebeldia, incluindo a Revolução Pernambucana de 1817, a Sabinada e o Levante dos Malês. Em maio de 1835, quatro participantes da sublevação dos Malês foram executados no local: Jorge da Cruz Barbosa, que havia conquistado sua liberdade, e os escravizados Pedro, Gonçalo e Joaquim. A sentence foi concretizada por fuzilamento, pois as autoridades não conseguiram encontrar nenhum carrasco disposto a realizar os enforcamentos planejados.
Pesquisas arqueológicas conduzidas na região da Pupileira corroboraram relatos históricos sobre a existência de um cemitério destinado a pessoas escravizadas, marginalizadas e africanos falecidos logo após a travessia do Atlântico. A arqueóloga Jeanne Dias explicou que as escavações revelaram fragmentos humanos, especialmente arcadas dentárias, sem encontrar esqueletos completos devido à superlotação do antigo jazigo. Os estudos indicaram que os corpos ali depositados pertenciam a indivíduos com idade entre 17 e 35 anos, evidenciando as condições precárias de vida desse segmento social.
O historiador Rai Cotias detallhou que o Campo da Pólvora era utilizado pela Coroa portuguesa para armazenamento de explosivos, funcionando como parte de um cinturão defensivo que se estendia pelas áreas vizinhas, compreendendo os bairros do Desterro, da Palma, da Saúde e do Grande Dique. A região, portanto, reunia funções militares, penais e funerárias, revelando uma sobreposição de usos que configura um capítulo seldom reconhecido da história soteropolitana.
Fonte: A TARDE