Documentos sigilosos revelados pela Polícia Federal nesta sexta-feira indicam que dois servidores exonerados do Banco Central podem ter prestado assessoria informal a Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. As apurações apontam que Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana teriam fornecido orientações confidenciais, revisado documentos sensíveis e intercedido em matérias de supervisão bancária em favor dos interesses de Vorcaro.
Paulo Sérgio atuava junto ao Departamento de Supervisão Bancária, setor responsável por acompanhar aspectos como capital, liquidez, gestão e mecanismos de controle interno das instituições financeiras. De acordo com os investigadores, a atuação do servidor teria ido além das suas funções oficiais, assumindo características de uma verdadeira consultoria paralela. Em conversas de dezembro de 2023, ele teria aconselhado Vorcaro sobre temas a serem abordados em encontros com Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central na época.
Em uma mensagem do dia 21 daquele mês, Paulo Sérgio recomendou que Vorcaro apresentasse uma proposta mostrando como o Banco Will poderia expandir a oferta de serviços de pagamento e contas correntes para aproximadamente quatro milhões de clientes do Credcesta. O Banco Master, em conjunto com a Reag Investimentos, havia comprado o Banco Will em fevereiro de 2024. Em janeiro de 2026, o Banco Central ordered a liquidação extrajudicial do Will Bank. Para a polícia, a aquisição posterior do banco sugere que as orientações prestadas podem ter contribuído diretamente para concretização do negócio.
As investigações também revelam que Paulo Sérgio tentou influenciar, a pedido de Vorcaro, mudanças em normas sobre enquadramento de entidades junto à Superintendência Nacional de Previdência Complementar. Vorcaro argumentava que as regras existentes favoreciam grandes instituições financeiras. Em abril de 2025, ele preparou um ofício do Banco Master destinado ao departamento e pediu a Paulo Sérgio que revisasse a minuta. O documento tratava de indicadores de liquidez que deveriam ser mantidos em patamares adequados até o dia 7 daquele mês. A polícia afirma que Paulo Sérgio devolveu o texto com correções sugeridas.
Em outubro de 2025, Belline Santana, ex-chefe de departamento da área responsável pela supervisão de bancos, criou um grupo de mensagens reunindo Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio. Os investigadores consideram que o grupo reforça a hipótese de uma relação de consultoria informal em benefício de Vorcaro, conduzida por meio de mensagens, telefonemas e análise de papéis. Na primeira mensagem, Belline explicou que havia formado o grupo para facilitar a comunicação. Em seguida, comentou um documento enviado por Vorcaro e propuso alterações na referência à Diretoria de Fiscalização.
O relacionamento entre Belline e Vorcaro, contudo, começou antes da criação do grupo. Em novembro de 2023, Belline enviou mensagem ao banqueiro tratando de assunto relacionado à Comissão de Valores Mobiliários. Em abril de 2024, ela também intermediou um encontro entre Vorcaro e Paulo Sérgio. Questionado sobre o teor da reunião, Belline respondeu tratar-se de uma visão prospectiva e estratégica. Segundo a polícia, o assunto não se encaixava nas responsabilidades de Belline como servidor do Banco Central, mas atendia aos interesses comerciais de Vorcaro.
A equipe de investigação também localizou conversas que sugerem pagamentos destinados a Belline. Em dezembro de 2023, Fabiano Zettel comunicou a Vorcaro que era hora de fazer um pagamento a Belline. O banqueiro perguntou se o dinheiro sairia diretamente do Banco Master, e Zettel respondeu que não. Em janeiro de 2024, outra mensagem indicava que um pagamento a Belline ainda estava pendente. No final daquele mês, Zettel informou que realizaria, além de outros, um pagamento direcionado a Belline.
Em outubro de 2024, Zettel esclareceu que parte de um valor enviado a Leonardo Palhares seria, na verdade, usada para quitar uma dívida com Belline. O valor mencionado na mensagem era de 760 mil reais. As discussões sobre pagamentos prosseguiram ao longo de 2025. Em uma das conversas, Zettel informou que Belline cobrava um pagamento. Vorcaro concordou que o pagamento deveria ser feito e voltou a questionar se os recursos sairiam do banco. Conforme a troca de mensagens, o dinheiro seria enviado a uma empresa intermediária, que depois repassaria a Belline.
Outra conversa menciona um pagamento durante uma viagem à França. Zettel informou que Belline deveria receber uma parcela, e Vorcaro mandou que o pagamento fosse feito por meio de um intermediário, com posterior reembolso. Essas mensagens fazem parte do conjunto de provas analisadas pela Polícia Federal e, isoladamente, não comprovam a ocorrência de crimes ou a culpa definitiva dos servidores. As investigações precisam esclarecer a natureza dos pagamentos, eventual contraprestação oferecida pelos servidores e se houve interferência indevida nas atividades de supervisão do Banco Central.
O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça ordenou a quebra do sigilo das principais investigações sobre o Banco Master que tramitam na Corte. A decisão atendeu a um pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin, e permitiu o acesso a inquéritos, reclamações e petições ligados ao chamado caso Master.
Fonte: Farol da Bahia