Conseguir uma oportunidade de trabalho no Brasil virou uma verdadeira maratona. Com processos cada vez mais rigorosos e uma disputa acirrada por cada vaga, receber o convite para uma entrevista já representa uma vitória. No entanto, essa etapa crucial exige mais do que qualificações técnicas impecáveis.
Os recrutadores, seja em encontros presenciais ou por meio de videochamadas, mergulham fundo no comportamento, na maturidade profissional e na capacidade de entrega dos candidatos. Para compreender o que realmente ocorre nos bastidores dessas conversas decisivas, profissionais da área de recursos humanos compartilham suas observações.
Segundo informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o país abriu mais de um milhão de vagas com registro em carteira durante o ano de 2025. Muitos desses trabalhadores passaram por seletivos rigorosos até conquistar a posição. Uma pesquisa realizada por plataformas especializadas em recrutamento indica que aproximadamente 48% das organizações de grande porte convocam entre quatro e cinco candidatos para avaliar cada oportunidade disponível.
Liz Coelho, psicóloga e Coordenadora de Pessoas e Cultura da empresa Zorya, alerta para armadilhas sutis que eliminam profissionais com currículos exemplares. Segundo ela, três situações recorrentes costumam causar a reprovação de candidatos que pareciam ideais no papel.
A primeira envolve a ausência de provas concretas. O profissional pode dominar a teoria, mas apresenta dificuldades ao exemplificar como aplicou aquele conhecimento para resolver problemas reais. A segunda refere-se a lacunas em habilidades complementares. Por exemplo, alguém que domina todos os sistemas necessários, mas demonstra resistência em repetir explicações quando solicitado. A terceira questão surge quando existe uma distância significativa entre as expectativas do candidato e a realidade do cargo oferecido.
Coelho pondera que uma resposta considerada fraca durante a conversa não deveria significar a eliminação automática. É fundamental distinguir se há uma deficiência real de competência ou se o formato da entrevista não permitiu que ela se manifestasse adequadamente.
Quanto aos comportamentos que mais preocupam recrutadores, a especialista menciona a postura de desrespeito, falta de honestidade ou a tendência de atribuir sempre a culpa aos outros pelas dificuldades enfrentadas. Também chama atenção quem insiste em transmitir uma imagem de perfeição absoluta, negando qualquer erro ou desafio superado. A maturidade profissional, nesse sentido, está relacionada à capacidade de reconhecer limitações e demonstrar vontade de evoluir.
Alguns aspectos estigmatizados no ambiente corporativo merecem uma reflexão mais cuidadosa. O nervosismo e a timidez, por exemplo, não invalidam a competência técnica, pois a pressão do momento afeta cada pessoa de maneira distinta. Questionar abertamente sobre remuneração, benefícios e modalidade de trabalho também não deveria ser interpretado como ganância. Para a especialista, essa atitude pode revelar que o profissional busca uma avaliação racional sobre a adequação da oportunidade à sua realidade.
Quando dois candidatos apresentam perfis muito semelhantes, a decisão depende de critérios específicos. A qualidade dos exemplos apresentados durante a conversa mostra como a pessoa realmente age no ambiente profissional. A disposição para aprender e reconhecer lacunas pesa mais do que fingir dominar tudo. Por fim, distinguir quem deseja genuinamente o desafio daquele que apenas quer escapar do emprego atual torna-se determinante.
Para quem se prepara para uma entrevista, as recomendações incluem pesquisar profundamente sobre a organização, compreender as exigências da posição e pensar em situações reais da trajetória profissional que demonstrem habilidades de resolução de problemas e adaptação. Ao enfrentar perguntas para as quais não há resposta pronta, a transparência continua sendo a melhor abordagem. Explicar como buscaria aprender ou solucionar determinada questão revela maturidade e abertura para desenvolvimento. O candidato também deve aproveitar a oportunidade para esclarecer dúvidas sobre a empresa, a rotina esperada e os reais desafios da função.
Fonte: A TARDE