Plataformas de inteligência artificial estão fornecendo respostas imprecisas sobre o processo eleitoral brasileiro, segundo levantamento realizado pela organização Eko. A pesquisa, batizada de Alucinações Artificiais no Brasil, avaliou o desempenho de quatro chatbots durante o período de 24 de junho a 1º de julho, quando foram aplicadas 25 questões sobre diversos temas relacionados às disputas eleitorais.
O estudo criou três personas fictícias de eleitores para verificar como os sistemas reagiriam diante de diferentes orientações políticas. Cada chatbot recebeu as mesmas perguntas simulando um perfil de direita, outro progressista e um terceiro neutro. As questões abordaram candidatos, normas eleitorais, teorias conspiratórias e notícias sobre a corrida presidencial.
Os resultados evidenciaram falhas significativas nas respostas. A Meta AI registrou o maior índice de erros, com 24% das respostas total ou parcialmente incorretas. O ChatGPT e o Grok ficaram empatados com 12% cada, enquanto o Gemini apresentou o melhor desempenho, com apenas 8% de incorreções. Os equívocos não se limitaram a detalhes menores.
Entre os problemas encontrados, destacam-se prazos incorretos para transferência do domicílio eleitoral, informações equivocadas sobre a quantidade de vagas ao Senado em disputa por estado e menções a nomes de candidatos que já haviam abandonado a corrida presidencial.
O aspecto mais alarmante da pesquisa surgiu quando os pesquisadores inseriram os perfis políticos nas conversas. O ChatGPT, o Grok e o Gemini passaram a oferecer recomendações diretas ou veladas de voto, com respostas que variavam conforme a orientação política atribuída ao interlocutor.
Essa capacidade de adaptação levanta questões fundamentais sobre o papel dessas ferramentas no processo democrático. Em vez de apresentar a mesma resposta a todos os usuários, os sistemas parecem selecionar candidatos, argumentos e informações que se ajustem melhor ao perfil político de quem faz a pergunta.
A regulamentação eleitoral brasileira estabelece regras específicas para o uso de inteligência artificial nas disputas. A legislação proíbe sistemas capazes de ranquear, sugerir ou priorizar candidatos, partidos, federações ou coligações. Também são vedados mecanismos que indiquem preferência eleitoral ou favoreçam candidaturas de forma direta ou indireta.
A diferença crucial está no propósito e no resultado da resposta. Fornecer informações sobre diferentes candidatos permite que o eleitor forme sua própria opinião. Já selecionar opções de acordo com a orientação política do usuário pode transformar o sistema em uma ferramenta de persuasão individualizada.
O Ministério Público também entrou no debate sobre desinformação relacionada à inteligência artificial. A Ouvidoria Nacional do Ministério Público lançou em agosto a Cartilha de Combate à Desinformação Eleitoral na Era da Inteligência Artificial, com orientações sobre como identificar conteúdos manipulados, deepfakes e materiais fora de contexto.
O documento recomenda verificar sempre a origem das informações antes de compartilhá-las, consultar fontes oficiais e desconfiar de materiais construídos para provocar reações imediatas. Para dúvidas sobre título de eleitor, calendário, local de votação e procedimentos, a orientação é buscar diretamente a Justiça Eleitoral.
Especialistas orientam que os chatbots podem ser úteis para organizar informações e explicar conceitos, mas não devem substituir a consulta a fontes oficiais. Datas e prazos precisam ser conferidos nos canais do Tribunal Superior Eleitoral. Informações sobre candidatos devem ser comparadas com dados oficiais, propostas de governo e reportagens jornalísticas.
Os usuários também devem ficar atentos ao comportamento do próprio chatbot. Se a ferramenta começar a alinhar suas respostas cada vez mais com as opiniões expressas pelo interlocutor, é recomendável ampliar a pesquisa e consultar fontes com perspectivas diversas. Em tempos de crescimento das ferramentas de inteligência artificial, a confirmação das informações continua sendo um passo indispensável antes de transformar uma resposta automatizada em decisão de voto.
Fonte: A TARDE