Há mais de duas décadas dedicadas ao magistério na rede pública de Salvador, as professoras Djanira Rainha, 52 anos, e Jacqueline Meire, 46 anos, desenvolvem um trabalho que vai além da sala de aula tradicional. Por meio de suas publicações próprias, elas promotionam o fortalecimento da autoestima de crianças negras e o resgate da cultura nordestina e afro-brasileira entre os estudantes.
Djanira leciona na Escola Municipal Alto de Coutos e criou a Biblioteca Social Afro-Indígena Meninas do Subúrbio, espaço dedicado a despertar nos alunos o gosto pela leitura. Em suas sessões de narração do livro "Este Cabelo é Meu", a educadora transforma o ambiente escolar em um cenário interativo, com sons, marionetes e encenação teatral. Durante as atividades, as crianças são incentivadas a conhecerem as características de seus próprios cabelos e a refletirem sobre identidade, representatividade e respeito à diversidade. "Trabalho a temática do meu livro não apenas em minha turma, mas também em outras instituições. Promovo oficinas de estética negra para valorizar a aparência das crianças negras, especialmente as garotas de fios crespos, numa perspectiva de valorização do povo negro", afirma a professora, autora de quatro obras e coautora de um livro de poemas sobre o Subúrbio Ferroviário e a estética negra.
Jacqueline, que atua na região da Cidade Baixa, realiza um trabalho semelhante partindo de suas próprias publicações. Seu livro "Luiz Rei", lançado em 2023, conta parte da vida de Luiz Gonzaga, o ícone pernambucano que popularizou o xote, o xaxado e o baião em todo o Brasil. Para a narração, a educadora se fantasia de Luiz Gonzaga, com chapéu de couro, triângulo e um boneco representando o compositor. A obra inclui elementos visuais do Nordeste, como o mapa da região, o clima, a vegetação característica — o umbuzeiro, o cajueiro e o mandacaru —, além de uma sanfona tridimensional que encanta os pequenos leitores, que são convidados a simular o toque do instrumento durante as sessões. Jacqueline também publicou "Pão, Chão, Coração" pela editora Arpillera e, neste ano, participou do livro "Contos para Ibejada", em parceria com o Coletivo de Escritores e Pesquisadores da Liga do Dendê.
Para as duas educadoras, a escrita representa uma forma de transformação social. Djanira enfatiza que escrever lhe permite olhar para suas próprias ações e provocar reflexões semelhantes nos alunos, enquanto Jacqueline define: "A escrita é arte, mais ampla do que nosso imediatismo pode compreender. Conecta passado, presente e conversa com o futuro. Escrever é ter asas e chão ao mesmo tempo, é energia e potência."