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Onda de intolerância: crescem ataques a símbolos católicos e mobiliza autoridades na Bahia

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Fonte: A TARDE
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Santuários que durante gerações representaram paz e devoção agora se tornaram cenários de violência e destruição. Imagens de santos veneradas por comunidades inteiras têm sido alvo de atos vandálicos em diversas regiões do território nacional, provocando indignação e mobilizando tanto as autoridades quanto a sociedade civil.

Até agosto de 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania recebeu 1.865 denúncias envolvendo liberdade de crença ou religião, totalizando 3.330 violações de direitos. Os números representam um crescimento de 4,8% nas denúncias e de 16,1% nas violações em comparação com o mesmo intervalo do ano anterior. Somente na Bahia, foram registradas 124 denúncias e 257 violações no período compreendido entre janeiro e agosto.

O advogado, procurador geral de Ribeira do Amparo e docente de direito e processo penal Luiz Fernando Ribeiro de Sales adverte que o aumento nos registros constitui um sinal de alerta, mas exige análise cuidadosa. Segundo ele, o crescimento pode refletir maior consciência das vítimas, maior confiança nos canais de denúncia ou melhor classificação dos casos. Contudo, Sales enfatiza que o fundamental é verificar se as denúncias se transformam em investigações efetivas, responsabilização dos autores e políticas públicas concretas. Para ele, quando há alta de registros sem resposta institucional correspondente, revela-se falhas na prevenção, na investigação ou na articulação entre os órgãos competentes.

A escalada de episódios levou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, a determinar a abertura de inquérito pela Polícia Federal para investigar pelo menos 11 casos de intolerância e violência contra símbolos religiosos. Entre os episódios mais graves estão: a queima da imagem de Nossa Senhora Aparecida em Novo Progresso, no Pará; a decapitação de uma imagem de Nossa Senhora em Cuiabá, no Mato Grosso; ataques em Londrina, no Paraná; Maceió, em Alagoas; Rio Grande, no Rio Grande do Sul; Monte Alegre, em Sergipe; e lojas de artigos religiosos católicos em Fortaleza, no Ceará.

Um dos casos mais recentes ocorreu em Salvador, no dia 22 de setembro, na Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado, localizada na região da Plataforma. Um homem invadiu o templo, arrancou a imagem de Santa Dulce dos Pobres do altar lateral e a destruiu diante do sacrário. As câmeras de segurança registraram a entrada do agressor.

O padre Marcos Venicius Studart Farias, pároco da instituição, lamenta que a intolerância tenha sido o aspecto mais evidente do ataque, uma vez que a destruição foi direcionada exclusivamente à imagem sagrada. Caso se tratasse de vandalismo comum, outros elementos do templo poderiam ter sido atingidos, como os candelabros, vitrais ou bancos. Para o sacerdote, que também possui formação em psicologia, esses atos de violência são reflexo da negligência com a saúde mental da população. Ele argumenta que é preciso olhar para o todo, para as pessoas fragilizadas que necessitam de apoio, e para a urgência de conscientizar a sociedade sobre o respeito às escolhas do próximo.

A fiel da paróquia e inúmera paroquial Dilma Soares, de 57 anos, esteve entre as primeiras a visualizar a imagem destruída. Emocionada, ela relata ter sentido profunda tristeza e questiona como alguém pode praticar tal atrocidade. Na visão dela, é doloroso perceber que algo que deveria inspirar amor e sensibilidade se transforma em alvo de destruição.

A aposentada Antônia Santos Goes, de 79 anos, manifestou indignação e sofrimento ao encontrar os fragmentos da santa no chão. Ela compara a sensação ao partirse do próprio coração. Goes cobra medidas mais rigorosas das autoridades para coibir tais atos.

Telma Lima, de 62 anos, frequentadora assídua da igreja, relata ter sentido dor profunda ao tomar conhecimento do caso. Na perspectiva dela, o ato não configura simples vandalismo, mas sim uma incitação ao ódio e à violência, considerando que a imagem representava uma pessoa que se dedicou aos mais necessitados e marcou a história de Salvador.

Antes do vandalismo na Paróquia da Plataforma, a comunidade da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, no bairro do Matatu, enfrentou tragédia semelhante. Na manhã de 11 de setembro, por volta das 7 horas, os fiéis encontraram quebrada a imagem de Nossa Senhora das Graças. A polícia militar, civil e técnica foram acionadas para atender a ocorrência.

O padre Valson Santos Sandes, pároco da instituição, afirma que a sequência de ataques causa preocupação, embora não seja possível estabelecer ligação direta entre os casos. Ele destaca que a imagem foi danificada no rosto e nas mãos, e que não havia objetos de metal ou cobre no local, elementos frequentemente visados em furtos. A forma como a peça foi violada sugere, segundo ele, a hipótese de intolerância religiosa em vez de vandalismo comum.

A comunidade optou por uma resposta pacífica: oração, solidariedade, reparação e cuidado com o espaço sagrado. Foi lançada a campanha dos 300 Guardiões da Casa do Senhor, que busca encontrar trezentas pessoas dispostas a contribuir com quinhentos reais cada para a instalação de um gradil protetor. Os fiéis também realizam orações em desagravo pelo ocurrido.

A Arquidiocese acompanha a situação de perto e continua orientando as paróquias. O cardeal-arcebispo Dom Sérgio da Rocha tem mantido contato direto com as comunidades afetadas, demonstrando solidariedade e preocupação.

Luiz Fernando Ribeiro de Sales explica que o Brasil dispõe de um abrangente arcabouço jurídico para proteger a liberdade religiosa, com base na Constituição Federal de 1988 e em toda a legislação infraconstitucional. A carta magna assegura a liberdade de consciência e crença, o exercício dos cultos e a proteção dos locais sagrados. Esse direito é reforçado pela Convenção Interamericana contra o Racismo e a Intolerância, que possui status de emenda constitucional.

No âmbito penal, o Código Penal tipifica crimes de escárnio, perturbação de cerimônias e injúria relacionada à religião. Leis como a de número 7.716, de 1989, e a de número 14.532, de 2023, ampliam a responsabilização por discriminação e racismo religioso, incluindo a regra de inafiançabilidade e imprescritibilidade. Além das ações penais, existe a possibilidade de reparação civil por dano moral, tanto individual quanto coletivo, com participação ativa do Ministério Público.

O delegado Ricardo Amorim, titular da Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, informa que a unidade policial investiga ocorrências envolvendo ataques a imagens e símbolos religiosos, incluindo os da Igreja Católica, quando há indícios de crimes relacionados à intolerância. A instituição busca garantir a responsabilização dos envolvidos e o respeito à liberdade de crença e de culto.

Os ataques às imagens de santos católicos, que se intensificaram recentemente, revelam uma violência que, embora nova para o catolicismo, é uma realidade antiga e persistente para as religiões de matriz africana. O babalorixá Vilson Caetano, do Ilê Obá Bá L'Okê, observa que esse ódio religioso, antes direcionado principalmente às tradições afro-brasileiras, agora começa a atingir também o catolicismo.

Para Caetano, o que fundamenta essa intolerância é o racismo, frequentemente disfarçado de discurso religioso, que busca deslegitimar saberes, identidades e modos de vida historicamente marginalizados. Ele explica que as religiões de matriz africana são alvos frequentes de violência porque mantêm viva a identidade e o modo de ser dos povos afrodescendentes. Na avaliação do antropólogo, professor associado da Universidade Federal da Bahia e pós-doutor em antropologia, o Brasil se torna cada vez mais perverso com o avanço desordenado do neopentecostalismo.

Caetano sostiene que, embora toda iniciativa inter-religiosa seja relevante, o combate fundamental deve ser direcionado ao racismo, por estar na raiz do problema. Para ele, muitas vezes a ideia de diálogo inter-religioso é conduzida pelas igrejas cristãs a partir de uma mensagem de paz, porém paz para quem sempre teve paz. O babalorixá avalia a busca por diálogo como positiva, mas questiona se existe espaço real para essa articulação.

Fonte: A TARDE

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