Um projeto inédito desenvolvido pelo Centro Especializado em Reabilitação da Barra, em Salvador, está transformando a vida de familiares de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista. Nesta terça-feira, doze pessoas receberam próteses dentárias personalizadas, todas produzidas com tecnologia de impressão tridimensional. Entre os contemplados, estão onze mães e um avô que acompanham regularmente os filhos e netos na unidade.
A iniciativa surgiu da observação das dificuldades enfrentadas por essas mulheres para cuidar da própria saúde. A professora Ediclea Barros, de quarenta anos, é mãe de dois meninos com necessidades especiais de suporte elevado. João, de nove anos, não se comunica verbalmente e requer atenção contínua, enquanto Joaquim, de sete, também demandada acompanhamento intensivo. Segundo ela, o dia a dia dedicado aos filhos raramente permite attentar às próprias necessidades.
"Sempre acabamos nos esquecendo de nós mesmas. Contar com um espaço que já acompanha nossos filhos e ainda oferece cuidado para nós, mães, faz toda a diferença", declarou Ediclea, emocionada com a oportunidade de receber atenção odontológica no mesmo local onde seus filhos são assistidos.
Ivanilda Souza, de quarenta e seis anos, também celebrou a conquista. Mãe de três filhos, sendo um com desenvolvimento atípico, ela enfrentava limitações financeiras para arcar com o tratamento. A ausência de um dente comprometia sua capacidade de se alimentar adequadamente e causava desconforto em situações sociais.
"O procedimento estava me incomodando bastante. Essa ação é incrível, devolveu minha vontade de sorrir", completou Ivanilda, que chegou ao programa após ser encaminhada por uma Unidade de Saúde da Família.
O trabalho odontológico ficou sob responsabilidade do cirurgião-dentista Sérgio Ribeiro, profissional com quase três décadas de experiência. O processo utiliza escaneamento digital da boca do paciente, modelagem por meio de softwares especializados e confecção das próteses em equipamentos de impressão tridimensional, com materiais biocompatíveis.
"Realizamos uma captura individualizada, personalizada para cada pessoa. Com o planejamento digital, conseguimos reduzir o número de atendimentos de sete ou oito sessões para apenas duas ou três", explicou o especialista em Radiologia e mestre em Odontologia Digital.
A metodologia permite registrar todas as informações em sistemas computadorizados, facilitando ajustes futuros quando necessários. O objetivo principal é recuperar funções essenciais como a mastigação, além de contribuir para o bem-estar emocional dos beneficiários.
A Subsecretária Municipal da Saúde, Edriene Teixeira, enfatizou que o programa representa o reconhecimento de demandas frequentemente negligenciadas. "A mãe de uma criança neurodivergente quase nunca encontra tempo para consultas médicas, tratamentos dentários ou sessões de terapia. Elas também necessitam de suporte psicológico", pontuou.
O diretor do CER Barra, Roberto Novaes, revelou que a ideia nasceu da convivência diária da equipe com as famílias. "Temos um trabalho voltado à atenção integral das mães atípicas. Durante esse processo, percebemos a carência de acesso a tratamentos odontológicos, especialmente relacionados a próteses. Decidimos devolver o sorriso dessas mulheres", contou.
Aurelino das Neves, pedreiro de sessenta e quatro anos, frequenta a unidade para acompanhar o neto António, de sete anos. Ele também foi incluído no programa e expressou sua gratidão.
"Estou muito feliz com meu sorriso novo. Consegui um resultado que não teria como pagar sozinho", comemorou.
Além do atendimento odontológico, o centro oferece suporte psicológico e psiquiátrico, grupos de diálogo, acompanhamento nutricional e planeja expandir as atividades com profissionais de educação física e fisioterapia. A unidade acolhe mensalmente novecentos usuários com comprometimentos físicos, neurológicos ou sensoriais, operando com trinta e cinco profissionais em vinte e seis salas equipadas.