A Aeronáutica do Brasil se recusou a fornecer os planos de voo da aeronaves de Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master, correspondente ao período em que ele ficou detido pela Polícia Federal em novembro de 2025. A instituição militar justificou a decisão argumentando que a divulgação dos dados poderia violar a privacidade dos passageiros, invocando o artigo 31 da Lei de Acesso à Informação, que admite restrições de sigilo por até um século.
A postura da Força Aérea contrasta abertamente com uma deliberação anterior da Controladoria-Geral da União. Em maio, o órgão de controle havia determinado que a Aeronáutica liberasse informações sobre voos realizados em Porto Seguro, na Bahia, incluindo prefixo das aeronaves, ponto de partida e destino. A controladoria entendeu que tais dados poderiam ser tornados públicos seguindo o formato de relações já publicadas pela própria Aeronáutica.
O pedido de acesso, proposto pelo portal UOL com base na legislação de transparência, abrangia o intervalo entre 10 e 20 de novembro de 2025. A solicitação incluía os planos de voo do jato de prefixo PS-FST, um Falcon 7X avaliado em aproximadamente duzentos milhões de reais, além de registros sobre eventuais modificações, atrasos ou cancelamentos. O equipamento aéreo pertence a uma empresa vinculada a Vorcaro.
Segundo a Aeronáutica, reconstituir o itinerário de uma aeronave em datas específicas possibilitaria identificar seus proprietários e passageiros mediante cruzamento com informações de domínio público. A instituição declarou que simplesmente ocultar os nomes não seria bastante para impedir a identificação e que o histórico de deslocamentos permitiria traçar os trajetos dos viajantes.
Os documentos requisitados poderiam esclarecer em que momento a viagem internacional de Vorcaro foi organizada e quando sofreu modificações. Investigadores recuperaram mensagens que demonstram que, em 15 de novembro, o banqueiro consultou um contato salvo no celular como "Alexandre de Moraes BRASILIA" sobre a necessidade de já estar "fora" na segunda-feira. A resposta não apareceu nas conversas analisadas.
Na noite daquele sábado, a empresa responsável pela operação do jato pediu autorização para pouso em Dubai. O plano inicial previa chegada em 20 de novembro, saindo de Milão, na Itália. Documentos apresentados pela defesa de Vorcaro ao Supremo Tribunal Federal revelam versões distintas do itinerário. Inicialmente, a partida estava marcada para a noite de 18 de novembro, com parada em Malta. Depois, Vorcaro comunicou ao piloto que o embarque havia sido adiantado para "amanhã à tarde". A versão definitiva previa decolagem às vinte horas e trinta minutos de segunda-feira, 17 de novembro, com chegada a Dubai no dia seguinte, também com escala em Malta. Naquela manhã, Vorcaro afirmou a diretores do Banco Central que precisava "antecipar" a viagem para fechar a venda do Banco Master a investidores estrangeiros. Ele foi detido antes de embarcar.
Em maio, a Controladoria-Geral da União avaliou um pedido de acesso a informações sobre voos que pousaram e decolaram em Porto Seguro durante três dias de outubro de 2022. A Aeronáutica havia recusado a solicitação sob a alegação de que os registros continham dados pessoais de terceiros. A controladoria ordenou a entrega dos dados com prefixo e matrícula das aeronaves, além de informações sobre origem e destino, no mesmo molde de listas já tornadas públicas pela Força Aérea. Uma dessas relações, publicada em 2025, reunia dados de aeronaves privadas que pousaram e decolaram em Brasília desde 2020, com datas e horários. A Aeronáutica cumpriu a determinação no final de maio. Com os prefixos, é possível filtrar as listas e reconstituir a sequência de voos de uma determinada aeronave.
Fonte: Últimas Notícias – Metro 1