O que você faria se precisasse libertar o vento? Entre esta sexta-feira e o dia 25 de outubro, o público baiano terá a chance de descobrir essa resposta nos palcos. Pode até parecer história inventada para fazer dormir, mas essa é precisamente a missão proposta por Como Libertar o Vento, espetáculo direcionado ao público infantojuvenil criado pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.
A montagem, com apresentações gratuitas no Teatro Martim Gonçalves, em Salvador, é dirigida por Fernanda Behrens como Trabalho de Conclusão de Curso na área de Direção Teatral. O espetáculo convida tanto pequenos quanto adultos a brincarem, aprenderem e deixarem a imaginação fluir.
A história acompanha uma família composta pelo avô, sua filha Bárbara e quatro netos, que habitam uma residência sem fornecimento de energia elétrica no interior da região nordestina. No quintal, as crianças se divertem, sonham e criam fantasias inspiradas na natureza ao redor. Até que percebem algo estranho naquele cenário: o vento, sempre presente nas brincadeiras, encontra-se preso dentro das turbinas eólicas recém-instaladas na comunidade, transformando a vida cotidiana e modificando o território. Os pequenos então embarcam em uma expedição para soltá-lo.
O espetáculo representa a primeira incursão de Fernanda Behrens no universo do teatro infantojuvenil e procura, através das brincadeiras e da fantasia, discutir um dos aspectos da transição energética, mostrando como esse processo também pode ser explorador para comunidades e territórios tradicionais.
A inspiração para tocar nesse tema surgiu durante uma viagem de automóvel pelo sertão de Pernambuco, quando Fernanda avistou múltiplos parques de geração eólica. A partir de relatos sobre as consequências da chegada das turbinas para os moradores da região, a diretora optou por aprofundar-se no assunto e integrá-lo à construção dramatúrgica.
Eu tinha a imagem de um quintal quando comecei a redigir a peça, de uma família com crianças, de um espaço de encantamento. Eu desejava trazer isso através de brincadeiras, de sonho. Mas, quando fiquei sabendo disso e iniciei as pesquisas, pensei: 'Nossa, seria muito bacana se essa brincadeira tratasse do vento e a gente pudesse refletir sobre isso', relata a diretora.
Fernanda também buscava encerrar a graduação com uma vivência artística distinta das anteriores. Para ela, a produção representou a chance de testar uma nova linguagem e finalizar o curso com um processo que considera leve. A elaboração do texto contou ainda com a colaboração da atriz e artista visual Queisy, que aportou contribuições criativas para o espetáculo.
Além de participar da construção da narrativa ao lado de Fernanda Behrens, Queisy também dá vida à personagem Flora, que descreve como gentil e essencial para o progresso da jornada. Dela surgiu a ideia de se mexer para libertar o vento. Ela planeja com Tuca que farão tudo que for necessário para desvencilhar o vento. Flora representa a doçura, resume a intérprete.
No espetáculo, Flora percebe que a chegada do parque eólico acarreta mais prejuízos do que vantagens para o povoado. Essa compreensão, contudo, é apresentada dentro de uma história marcada pelo fascínio e pelas brincadeiras típicas da infância.
Para Queisy, participar da construção da narrativa foi uma experiência prazerosa, que se estendeu pelos ensaios. Durante os ensaios, elementos foram sendo modificados conforme cada necessidade que aparecia. Foi um processo muito gostoso e divertido, conta.
Já Cícero Locijá interpreta o Sr. Barulho, uma representação física e fantástica do próprio vento confinado nas turbinas eólicas. Na criação da personagem, o artista buscou referências em documentários, leituras e exercícios de improvisação, além de figuras populares da ficção infantil. Inspirado em antagonistas de desenhos animados, drag queens, bruxas e outras personagens carismáticas, ele tentou construir uma figura que provocasse diferentes reações na plateia.
Ele é um vilão com magnetismo, muito carisma. É um antagonista que consegue fazer o público compreender o lado dele, pois ele não nasceu mau. Ele se tornou vilão, não foi criado para ser vilão, explica.
A caracterização também utiliza a perna de pau, técnica que ajuda a representar corporalmente a turbina eólica. Para Cícero, esse recurso amplia o aspecto brincalhão da montagem e desperta a curiosidade das crianças. Na narrativa, os confrontos com o Sr. Barulho se dão através de desafios e recreações infantis, que ganham relevância no andamento da história.
Embora seja o antagonista da aventura, o personagem não carrega sozinho a responsabilidade pelos problemas enfrentados pela família e pela comunidade. Na visão do ator, ele funciona como uma figura sobre a qual recai a indignação do público, embora os verdadeiros responsáveis sejam os grandes empreendedores. Ele é o vilão inocente, ele é para onde o ódio é direcionado, ele é apenas mais uma peça nesse jogo, afirma.
Cícero destaca também o aspecto coletivo da criação e espera que a personagem provoque risos, sustos e até revolta, sem deixar de lado sua humanidade. A intenção é demonstrar que existem contradições por trás de figuras aparentemente ruins e que os conflitos apresentados não se limitam a uma única perspectiva. Além de Cícero Locijá e Queisy, o grupo de atores inclui Artur Carvalho, Dani Souza, Parawara, Pedro de Rosa Morais, Raissa Paixão e Selma Santos.
Uma referência significativa para a elaboração do espetáculo foi a poesia de Manoel de Barros, presente na infância de Fernanda e ligada à ideia do quintal como espaço de imaginação. As memórias da própria infância e as vivências com a família materna também permeavam a criação.
Encerrar dialogando com a infância é contemplar a minha própria infância. Para alcançar os sonhos, para transformar as coisas, precisamos nos permitir sonhar, enxergar possibilidades de mundos diferentes, afirma a directora.
Ao discutir os efeitos da instalação de parques eólicos, Como Libertar o Vento procura despertar reflexões sem impor respostas acabadas. A proposta é criar espaço para que crianças e adultos elaborem suas próprias leituras a partir da vivência teatral.
Cada pessoa virá com sua bagagem, com suas experiências e caminhará com tudo isso. Mas esperamos que ao menos o público reflita sobre tudo aquilo que estamos problematizando, não como verdade absoluta, não como certo e errado, não como algo unilateral, mas algo conversacional também, no sentido de gerar questionamentos, diz Fernanda.
Programação aberta ao público: sextas-feiras às 18h, sábados às 10h e às 16h, domingos às 10h e às 16h. Sessões com capacidade reduzida por conta da mediação: quartas-feiras às 15h. Teatro Martim Gonçalves, localizado na Escola de Teatro da Ufba, no bairro do Canela. Entrada franca.
Fonte: A TARDE