A Câmara Municipal de Salvador concentrou mais da metade de seus gastos anuais com publicidade entre julho e agosto de 2026, período que coincide com as convenções partidárias e o início da corrida eleitoral. No total, o legislativo municipal repassou R$ 5.261.586,16 para a agência W4 Comunicação & Marketing nos primeiros oito meses do ano, sendo que R$ 2.902.902,20 foram destinados aos dois meses que antecederam diretamente o primeiro turno das eleições gerais.
Os dados do sistema financeiro municipal revelam um padrão fora do habitual. Enquanto de janeiro a junho a agência recebeu R$ 2.358.683,96, apenas o pagamento de agosto sozinho alcançou R$ 1.761.711,25 — quase sete vezes o valor registrado em janeiro. Em 2025, ano sem disputa eleitoral, a distribuição dos recursos foi bem mais equilibrada ao longo dos meses.
O presidente da Câmara, vereador Carlos Muniz, assinou o contrato com a W4 e seus aditivos. Seu filho, Carlos Muniz Filho, médico de 25 anos, concorreu à Câmara Federal pela Federação PSDB Cidadania e foi eleito com 141.762 votos. Na urna eletrônica, o candidato usou apenas o nome "Carlos Muniz", exatamente igual ao do pai, que comanda o legislativo municipal.
As contas eleitorais do candidato registram doações do próprio pai, no valor de R$ 20 mil, além de contribuições que levantam questionamentos. Em 23 de setembro, a campanha recebeu R$ 30 mil de uma pessoa com o mesmo nome da chefe de gabinete da Presidência da Câmara — servidora que, coincidentemente, é a fiscal designada do contrato de publicidade com a W4, responsável por verificar a execução dos serviços e autorizar pagamentos. Seis dias depois, outros R$ 28 mil entraram nos cofres da campanha vindo de um doador com o mesmo nome do diretor financeiro da Casa.
O contrato CMS nº 19/2024, firmado com a W4, ilustra a escalada dos gastos. Iniciado em junho de 2024 com valor anual de R$ 10 milhões, foi ampliado para R$ 12,5 milhões em maio de 2025, um aumento de 25%. Em maio de 2026, a menos de cinco meses da eleição, foi renovado por mais doze meses, sem qualquer redução no valor. A Câmara também mantém contrato com a agência Ideia 3, do mesmo valor, que recebeu apenas R$ 137.469,98 em 2026, todos em agosto.
A legislação eleitoral permite a investigação por abuso do poder político quando um ocupante de cargo público utiliza a estrutura estatal para favorecer uma candidatura. A Lei das Eleições estabelece que publicidade oficial com nomes ou imagens de autoridades pode configurar abuso de autoridade, punível com inelegibilidade por oito anos e cassação do registro ou diploma do candidato beneficiado.
O portal de transparência municipal dificulta o acompanhamento dos gastos. A data de pagamento exibida no site corresponde à anexação do relatório, em média 12 dias após o efetivo repasse, podendo chegar a 46 dias. Dessa forma, 27 notas fiscais quitadas em agosto, totalizando R$ 843.073,99, aparecem como pagas apenas em setembro.
A Câmara Municipal de Salvador precisa esclarecer quais campanhas publicitárias foram veiculadas entre maio e agosto, se alguma trouxe o nome ou a imagem do presidente, e em quais municípios circularam. Também precisa explicar a concentração quase total dos recursos em uma única agência e confirmar se os servidores comissionados que fiscalizam e autorizam os pagamentos são de fato os mesmos nomes que aparecem como doadores da campanha.
Fonte: A TARDE